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Vinte pontos para um conservador brasileiro

Carlos Henrique Araújo, mestre em Sociologia e Curador da Academia da Direita


Neste artigo, iremos lidar com 20 preceitos, premissas e aspectos que caracterizam uma posição política conservadora. O pano de fundo é o Brasil e seus problemas e especificidades. Dividiremos a exposição em aspectos políticos, econômicos e aspectos culturais e de comportamento.

Marcaremos argumentos, exemplos e citações corroborando o raciocínio dos pontos fundamentais aqui arrolados. Em alguns casos, indicaremos (apenas de forma opinativa) o caminho mais fértil em prosperidade, liberdade e coesão social a ser trilhado. Consideramos que são argumentações gerais, desmistificações úteis e análise dos problemas nacionais.

Aspectos políticos

Descentralização do poder e da administração

O princípio da subsidiariedade estabelece que estruturas superiores não devem absorver funções que estruturas inferiores podem exercer adequadamente. Este conceito mostra que a hipertrofia estatal sufoca iniciativas locais, comunitárias e familiares, gerando ineficiência burocrática, desperdício de recursos públicos e distanciamento entre decisores e afetados pelas políticas. A descentralização administrativa permite, por exemplo, que municípios e estados adaptem soluções às realidades regionais, promovendo ação institucional, fiscalização mais efetiva e alguma proteção contra o totalitarismo.

Jonah Goldberg, em O suicídio do Ocidente, pontua o ímpeto autoritário da centralização: “Na verdade, o poder administrativo do Executivo revive muitos detalhes do antigo poder real. O direito administrativo, desse modo, não é uma resposta unicamente moderna a circunstâncias modernas, mas a mais recente expressão de um antigo e preocupante desenvolvimento.” (Goldberg, 2020, p. 208). Ou ainda: “De fato, a ideia de que o Estado é uma entidade em si mesmo, encarregado de fazer girar a roda do progresso, não é meramente não democrática; é uma forma de misticismo.” (Goldberg, 2020, p. 209).

Sociedades que respeitaram os princípios da descentralização do poder e da administração demonstraram maior capacidade de resolução de problemas e fortaleza institucional; os EUA são exemplo. 

Já o Brasil foi pelo caminho errado, com um Estado inchado consumindo 35% ou mais do PIB nacional sem entregar serviços públicos de mínima qualidade. A reversão deste quadro exige, dentre inúmeras outras ações, a reforma tributária que fortaleça a autonomia federativa, a privatização de empresas estatais desnecessárias e a transferência de competências educacionais e de saúde para instâncias mais próximas do cidadão.

Segurança jurídica e Estado de Direito

A proteção de contratos, a previsibilidade na aplicação de leis e o respeito a direitos de propriedade constituem fundamentos institucionais indispensáveis para o crescimento econômico. Investidores alocam capital apenas quando confiam que regras não serão alteradas arbitrariamente e que litígios serão resolvidos imparcialmente por Judiciário independente. A insegurança jurídica brasileira, caracterizada por mudanças regulatórias frequentes e decisões judiciais imprevisíveis e exóticas, eleva o custo de capital e afugenta investimentos.

O Estado de Direito exige que a lei se aplique uniformemente a governantes e governados, vedando privilégios de casta e arbitrariedade administrativa. Mas o que vemos acontecer em nosso país é justamente o contrário; a lei na nossa realidade não é aplicada de forma igual.

O Brasil convive com escandalosa anomia, uma espécie de anarquia jurídica. Nem mesmo a relação entre os poderes está funcionando. A restauração do império da lei demanda retomada da divisão de funções dos poderes, o funcionamento aprimorado do sistema de freios e contrapesos, a reforma do sistema de Justiça que elimine privilégios processuais, acelere julgamentos, profissionalize a magistratura e responsabilize juízes por decisões manifestamente ilegais ou ideologicamente motivadas.

Espírito reformista e não revolucionário

Reformas previdenciária, tributária, trabalhista e administrativa são necessárias para destravar o potencial produtivo brasileiro, aumentar a competitividade internacional e gerar empregos de qualidade.

O sistema previdenciário brasileiro consome recursos crescentes devido a privilégios corporativos e ao envelhecimento populacional, tornando-se insustentável sem reformas periódicas. Novamente, o país terá de enfrentar a questão da idade mínima e das aposentadorias precoces. Também será muito importante a discussão e deliberação sobre implantar o regime de capitalização.

A carga tributária elevada e complexa sufoca o setor produtivo, exigindo simplificação radical por meio de imposto único sobre consumo ou renda. Devemos copiar modelos já testados com sucesso e que tenham como cerne diminuir a carga tributária e simplificar.

A legislação trabalhista brasileira, inspirada no corporativismo fascista da Era Vargas, encarece a contratação e a demissão e empurra milhões para a informalidade. A reforma feita no governo Temer fez avançar a modernização das leis, mas boa parte dessas flexibilizações e avanços foi judicializada e o STF, na maioria delas, decidiu com a cabeça mergulhada no passado.

Agora é necessário o aprofundamento da flexibilização, permitindo negociação direta entre empregadores e empregados, reduzindo custos rescisórios e facilitando a contratação temporária, pois isso expandiria dramaticamente as oportunidades de trabalho, especialmente para jovens e trabalhadores menos qualificados e, por óbvio, menos experientes. A resistência sindical a essas reformas revela interesse corporativo em preservar privilégios dos dirigentes e de seus padrinhos.

Sobre a reforma administrativa, deve-se ter como fito principal diminuir a obesidade estatal, com eliminação de retrabalho, remoção de estruturas disfuncionais, privatização e encerramento de estatais que ainda seguem sugando os cofres públicos com corrupção, incompetência e desvio de função.

Combate à corrupção e ao corporativismo

Mercados funcionam adequadamente e de forma sólida quando há concorrência leal, transparência e punição rigorosa a desvios, captura regulatória e privilégios cartoriais que distorcem a alocação de recursos.

A corrupção não se limita a desvio de recursos públicos, mas inclui sistema generalizado de troca de favores entre Estado e grupos organizados que obtêm benefícios por meio de relações obscuras, e não de eficiência produtiva. É o famoso estamento burocrático. Este corporativismo sufoca concorrência, eleva preços, reduz inovação e perpetua a existência de protegidos politicamente.

O combate efetivo à corrupção exige redução do tamanho do Estado, pois, quanto maior o poder governamental de conceder benesses aos aliados, maiores os incentivos para corromper decisores públicos.

Reformas institucionais devem incluir transparência total de gastos públicos por meio de portais on-line acessíveis, eliminação de sigilo em contratos governamentais (salvo segurança nacional), criminalização de lobby não registrado e punição severa, incluindo confisco total de patrimônio de corruptos condenados. A impunidade brasileira, onde condenados recorrem indefinidamente e raramente cumprem penas, perpetua a cultura de ilicitude que corrói a confiança institucional.

Solidariedade versus assistencialismo e coletivismo

A justiça autêntica emerge de virtudes como caridade, responsabilidade pessoal, associativismo voluntário e solidariedade comunitária, não de engenharia social imposta coercitivamente pelo Estado. Os chamados corpos intermediários, como famílias, igrejas, associações e empresas, mediam a relação entre indivíduo e Estado, provendo redes de apoio mútuo e cultivando virtudes cívicas.

Pelo contrário, um Estado assistencialista, como é o nosso, que monopoliza a provisão de bem-estar, destrói os corpos intermediários fundamentais, atomizando indivíduos e criando dependência degradante que mina a dignidade humana. Por exemplo, há muitos que consideram o Bolsa Família como o maior programa de compra de votos no planeta, mas, independentemente desse fato, é um programa que distorce a realidade e gera, sim, um ambiente de satisfação em meros níveis de sobrevivência.

Em várias partes do Brasil, especialmente no Norte e Nordeste, hoje há mais famílias recebendo a bolsa do que pessoas empregadas com carteira assinada; isso mostra a distorção profunda do modelo econômico e de incentivos do país. Em fevereiro de 2026, eram 18,8 milhões de famílias no programa contra 48,8 milhões de empregos formais, sendo que, em nove estados – Maranhão, Pará, Piauí, Bahia, Paraíba, Amazonas, Alagoas, Acre e Amapá – o Bolsa Família já superou o total de trabalhadores com carteira (dados de fevereiro de 2026 do Novo Caged/MTE e do Bolsa Família).

Em casos extremos como o Maranhão, são 1.156.990 beneficiários para apenas 696.947 empregos formais, enquanto no outro extremo, estados do Sul e Sudeste, como São Paulo, têm milhões de empregos a mais que beneficiários, com superávit de 12,5 milhões de trabalhadores com carteira na comparação com as famílias no programa.

É fácil perceber que esse quadro é alarmante porque significa que, em largas faixas do território, o Estado tornou-se a principal folha de pagamento, deslocando o protagonismo do trabalho e da iniciativa privada, já que, além dos 18,8 milhões de beneficiários registrados em abril de 2026, milhares de municípios ainda têm mais Bolsa Família do que empregos formais, concentrados no Norte e Nordeste. Somos um país campeão de assistencialismo, populismo fiscal e inércia social.

A expansão contínua e sem critérios claros do Bolsa Família, em vez de funcionar como ponte temporária (porta de saída) para o emprego, acaba se consolidando como um sistema de dependência crônica justamente onde governos fracassam em garantir segurança jurídica e ambiente pró-mercado para geração de empresas e vagas formais, como indicam as diferenças gritantes entre estados do Norte e Nordeste e economias mais dinâmicas, como as do Sul e do Sudeste.

Historicamente, sociedades cristãs e católicas desenvolveram instituições fincadas na caridade e no saber. Impressionantes hospitais, orfanatos, universidades e escolas, de iniciativa privada e religiosa, demonstram a superioridade da caridade voluntária sobre a burocracia estatal. O welfare state moderno não apenas é financeiramente insustentável, mas corrói o capital social ao substituir responsabilidade pessoal por direitos a benefícios, transformando cidadãos em clientes do Estado paternalista.

Thomas E. Woods Jr., em sua obra-prima Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, aponta para a criação das universidades: “O que Knight e Lomas não mencionam é que, durante essa ‘Idade das Trevas’, a Igreja desenvolveu o sistema universitário europeu, autêntico dom da civilização ocidental ao mundo. Muitos historiadores se maravilham diante da ampla liberdade e autonomia com que se debatiam as questões naquelas universidades. E foi a exaltação da razão humana e de suas capacidades, o compromisso com um debate rigoroso e racional, a promoção da pesquisa intelectual e do intercâmbio entre os estudantes dessas universidades patrocinadas pela Igreja – foi isso que forneceu as bases para a Revolução Científica.” (Woods Jr., 2012, p. 7).

A reconstrução de uma sociedade justa exige o renascimento de virtudes de caridade prática e o fortalecimento das famílias e comunidades locais. Ao Estado resta a função subsidiária de assistir genuinamente incapazes; o Estado não pode subsidiar ócio voluntário, que aos poucos destrói os bons valores que fundamentam a sociedade.

É preciso acrescentar que uma educação realmente de qualidade, que forme técnicos e profissionais, ajudaria as famílias a encontrar portas de saída, para que, de fato, o benefício seja temporário. Hoje, é preciso concordar que em boa parte dos casos o que se tem é um gigante curral eleitoral.

Um não ao ambientalismo radical

O ambientalismo ideologizado, que subordina o desenvolvimento humano à preservação ambiental absoluta, tratando a humanidade como câncer e o progresso tecnológico como ameaça existencial, inverte a hierarquia adequada de valores. Claro que a criação material existe para servir bens aos humanos; devemos produzir e explorar nossos recursos para que virem riquezas de fato, para o florescimento de gerações futuras, impedindo o congelamento da economia e com menos amarras irracionais.

Pascal Bernardin, em O império ecológico, expõe com clareza essa inversão de valores: “A análise sistêmica, utilizada de forma abusiva, provoca, portanto, uma modificação profunda na concepção do homem, que, de ser espiritual, se vê subjugado à escala de um mero cupim (…) Os problemas sistêmicos, reais, exagerados ou imaginários, constituem alavancas ideológicas incomparáveis, que permitem a intervenção em todos os domínios, sob pretexto os mais fúteis e descabidos. Dessa forma será possível, por exemplo, reformar as instituições internacionais sob o pretexto de ameaças ecológicas.” (Bernardin, 2015, pp. 95-96).

O catastrofismo climático que prediz uma espécie de apocalipse iminente sem reformulação radical da civilização industrial replica a estrutura de cultos milenaristas, substituindo salvação religiosa por seita ecológica, onde a razão não prevalece. Além disso, é a mais completa e profunda mentalidade revolucionária. Tem em sua expressão máxima o tal do aquecimento global, agora substituído pelo vago termo de “mudança climática”.

Ralph B. Alexander, em Aquecimento global: alarme falso, resume bem esses fatos: “Por conseguinte, grande parte do ônus financeiro desse empreendimento global, totalmente equivocado, de controlar as emissões de CO₂ recai sobre a população de baixa renda. O custo de limitar o carbono será devastador, sobretudo para os países em desenvolvimento, que já lutam com intuito de alcançar os vizinhos industrializados.” (Alexander, 2010, p. 181).

As políticas ambientalistas radicais, impostas por burocracia internacional não eleita, prejudicam desproporcionalmente os países em desenvolvimento, negando aos pobres acesso à energia barata e a tecnologias que permitiram o enriquecimento de nações europeias, EUA e Canadá, por exemplo.

Diríamos que o Brasil não deve sacrificar a exploração racional de recursos naturais, o agronegócio e o desenvolvimento de infraestrutura logística e energética no altar de uma ideologia (o ambientalismo) que beneficia interesses geopolíticos de potências estrangeiras por meio de ONGs desejosas por congelar o crescimento e o fortalecimento de competidores, para estabelecer incríveis reservas de mercado.

A conservação autêntica é compatível com o uso de recursos por meio de direitos de propriedade bem definidos, segurança jurídica, tecnologia moderna e prudência.

Aspectos econômicos

Livre mercado e propriedade privada

A propriedade privada dos meios de produção constitui direito natural que antecede o Estado, protegendo a liberdade individual contra tirania coletivista e permitindo que indivíduos colham os frutos de seu trabalho. Também devemos afirmar que o sistema de preços em mercados livres processa informações dispersas sobre preferências e escassez com eficiência impossível ao planejamento central, conforme demonstrado pela Escola Austríaca de Economia.

Certamente, a apropriação privada de resultados incentiva investimento, inovação tecnológica e uso racional de recursos, enquanto a propriedade coletiva gera tragédia dos comuns, totalitarismos e destruição econômica, como aconteceu em inúmeros países, no passado e recentemente, que insistiram nessa via do coletivismo.

Nas palavras do nosso maior economista liberal, Roberto Campos: “O colapso do socialismo não foi mero acidente histórico, resultante da barbárie da União Soviética ou da perversão de carniceiros como Stalin e Mao Tsé-Tung. Era algo cientificamente previsível. Os iludidos cientistas sociais teriam certamente chegado a essa conclusão se, ao invés de treslerem a história, tivessem lido os grandes liberais austríacos. Muito antes das fanfarronadas de Kruschev, já na década dos vinte, Ludwig von Mises demonstrava a inviabilidade do planejamento central sem a sinalização dos preços do mercado.” (Campos, 1999, p. 44).

Empiricamente, países com instituições que protegem direitos de propriedade apresentam PIB per capita significativamente superior àqueles com insegurança jurídica sobre ativos. O Brasil ocupa posição intermediária em rankings de proteção à propriedade, explicando parcialmente seu atraso em relação às economias desenvolvidas.

Vale a pena abordarmos o Índice Internacional de Direitos de Propriedade (International Property Rights Index – IPRI). Ele é utilizado para comparar a proteção à propriedade privada entre países. É anual e produzido pela Property Rights Alliance, que mede o quão bem cada país protege direitos de propriedade (física e intelectual). A edição mais recente avaliou 125 países, cobrindo quase todo o PIB mundial. O índice é composto por três grandes blocos de indicadores: ambiente jurídico e político, de independência do Judiciário, confiança nos tribunais, estabilidade política, nível de corrupção; proteção da propriedade material (imóveis, bens), qualidade dos registros de propriedade e acesso ao crédito; proteção de patentes, marcas e direitos autorais, nível de pirataria.

Países como Finlândia, Noruega, Suécia, Suíça, Cingapura e Nova Zelândia aparecem sistematicamente entre os primeiros colocados. São países que combinam Judiciário relativamente independente e previsível com alta proteção da propriedade física, por meio de baixa probabilidade de expropriação e boa segurança de registro e, por fim, boa proteção da propriedade intelectual, com sistemas de patentes e marcas eficientes.

O Brasil figura em posições medianas ou baixas. Em 2023, nosso país apareceu em 83º lugar entre 125 nações, indicando piora relativa no ranking global. Os pontos mais negativos são o ambiente político e jurídico, a estabilidade institucional e os problemas em registro de propriedade (regularização fundiária, insegurança jurídica, por exemplo).

O estudo implica alertas enfáticos sobre nossos eternos problemas. Há um ambiente refratário a investimentos, caracterizado como insegurança jurídica e fuga de capitais. O efeito de instabilidade política e de decisões judiciais mina a confiança na proteção à propriedade privada. O Brasil, com seu já entranhado intervencionismo, aparece atrás de países formalmente socialistas em direito de propriedade.

A defesa irrestrita da propriedade privada reconhece que sua limitação deve ocorrer apenas em casos excepcionais de utilidade pública, mediante justa indenização e devido processo legal.

Ludwig von Mises via desta forma a função da propriedade privada: “Todas as civilizações, até os dias de hoje, foram baseadas na propriedade privada dos meios de produção. No passado, civilização e propriedade privada sempre andaram juntas. Aqueles que sustentam que a economia é uma ciência experimental, e apesar disso recomendam o controle estatal dos meios de produção, se contradizem lamentavelmente. Se pudéssemos extrair algum ensinamento da experiência histórica, este seria o de que a propriedade privada está inextricavelmente ligada à civilização.” (Mises, 2010, p. 322).

Responsabilidade fiscal e Estado mínimo

A responsabilidade fiscal é premissa indispensável para liberdade econômica, crescimento e proteção de gerações futuras contra a socialização de dívidas contraídas ao deus-dará. Estados que gastam sistematicamente acima de sua arrecadação geram graves problemas e desvios no setor privado, pressionam a taxa de juros, aceleram a inflação e reduzem os investimentos produtivos. Essa é uma lição que alguns governos insistem em não aprender. O Brasil apresenta carga tributária de 33% do PIB, em média; pior, devolve serviços públicos de qualidade inferior, evidenciando desperdício monumental e evidente má alocação de recursos.

Citar Roberto Campos, com toda a sua fina ironia, é oportuno: “Como os gastos públicos são feitos com dinheiro dos outros, dão a impressão de ser de graça. Não é fácil perceber que são ‘custos’ que alguém vai ter de pagar. Essa anestesia faz a festa dos políticos. Gastar não dói. Quem gasta, no governo, não é quem arrecada. Por isso, quem tem de controlar o cofre é o grande chato de qualquer governo, o estraga-festa.” (Campos, 1999, p. 220).

O Estado mínimo, defendido pelo liberalismo, concentra-se apenas em funções essenciais: segurança pública, justiça, defesa nacional e financiamento de infraestrutura básica que mercados não proveem adequadamente, como no caso do saneamento básico da Amazônia. Tudo o que excede este núcleo deveria ser privatizado, terceirizado ou descontinuado, liberando recursos para redução da carga tributária, assim estimulando consumo, investimentos e abertura de empresas. A experiência de grande parte dos países livres demonstra que contenção de gastos e simplificação tributária produzem crescimento econômico e, consequentemente, melhoria de indicadores sociais.

O excesso de regulamentação, as amarras burocráticas ao empreendedor e a imposição de toda sorte de obstáculos minam a criatividade da sociedade e o ímpeto próprio e necessário dos empresários, tornando o país mais pobre e estatizante, isso para atender ao afã torpe de certos setores em substituir o mercado pelo Estado obeso e paquidérmico.

Aprendemos com Mises que isso é uma enorme distorção, pois: “A economia de mercado é um modo de agir, fruto da ação do homem sob a divisão do trabalho. Todavia, isto não significa que seja algo acidental ou artificial, algo que possa ser substituído por outro modo de agir qualquer. A economia de mercado é o produto de um longo processo evolucionário (…). É, por assim dizer, a estratégia cuja aplicação permitiu ao homem progredir triunfalmente do estado selvagem à civilização.” (Mises, 2010, p. 324).

Livre comércio e desregulamentação

A remoção de barreiras comerciais e a redução de regulamentações governamentais promovem especialização produtiva conforme vantagens comparativas, maximizando a eficiência econômica global. O protecionismo comercial beneficia produtores ineficientes às custas de consumidores, que pagam preços artificialmente elevados, gerando perda líquida de bem-estar social. A história econômica recente demonstra que países que abriram suas economias experimentaram crescimento acelerado (Coreia do Sul, Chile, Irlanda), enquanto nações protecionistas estagnaram (Cuba, Venezuela, Brasil).

Roberto Campos, em sua autobiografia histórica A lanterna na popa, diagnostica, como um verdadeiro lamento, o porquê de o Brasil ter patinado, sendo, por muitas décadas, ensimesmado, fechado, protecionista e xenófobo – de certa forma, o que somos até hoje: “O Brasil, num autoisolamento decorrente de políticas errôneas, ficou marginalizado na terceira onda mundial de crescimento, entre 1984 e 1990, quando subiram ao proscênio os países asiáticos.” (Campos, 1994, p. 21).

A regulamentação excessiva funciona como barreira de entrada que protege empresas já estabelecidas. É para impedir a competição, elevando os custos e inviabilizando pequenos e médios empreendedores. O Brasil possui uma das burocracias mais pesadas do mundo, exigindo meses para abertura de empresas e centenas de horas anuais para cumprimento de obrigações tributárias.

Os números são notadamente absurdos. O Índice de Burocracia Ibero-Americano 2023, da Universidade Internacional da Flórida, calcula que abrir um negócio no Brasil consome cerca de 51 dias de labuta, o equivalente a 410 horas de burocracia entre registros, licenças, fiscalizações e cadastros. Ainda segundo outro relatório, o Doing Business, do Banco Mundial, as empresas brasileiras gastam cerca de 1.500 horas por ano apenas para apurar, declarar e pagar tributos – é o maior tempo do mundo, contra média global em torno de 200 a 250 horas.

A desregulamentação inteligente não elimina proteções legítimas contra fraude ou externalidades negativas, mas remove controles desnecessários que sufocam a inovação e encarecem os produtos sem benefício proporcional para a sociedade.

Princípio da destinação universal dos bens

Embora a propriedade privada seja direito natural legítimo, conservadores acreditam que os frutos da produção devem servir ao bem comum por meio de geração de empregos, filantropia voluntária e investimentos produtivos; certamente, não por meio de redistribuição coercitiva estatal.

O conservadorismo rejeita tanto o coletivismo que anula a propriedade quanto o individualismo radical que ignora a dimensão social da riqueza. O empresário deve reconhecer que o lucro é legítimo quando obtido honestamente e dirigido a fins que beneficiam a sociedade, incluindo os trabalhadores, os consumidores e a comunidade.

A caridade autêntica é voluntária e nasce da virtude pessoal, não da coerção tributária que transfere aos burocratas a decisão sobre uso de recursos alheios. Como já constatado, a experiência histórica demonstra que sociedades cristãs atendem os necessitados mais eficazmente do que Estados assistencialistas. Ao fim e ao cabo, o assistencialismo perpetua a dependência e destrói a dignidade dos indivíduos pelo paternalismo degradante, tão típico dos governos de esquerda pelo mundo afora.

Patriotismo econômico

Cooperação internacional e abertura comercial devem sempre observar a soberania nacional e o desenvolvimento de capacidades produtivas estrategicamente relevantes, evitando dependência externa absoluta em setores críticos para a segurança nacional.

Consideramos que o livre comércio é benéfico e fundamental, mas países devem preservar autonomia em defesa, energia, alimentos e tecnologias sensíveis, impedindo que globalização irrestrita torne nações vulneráveis a chantagens geopolíticas.

O Brasil deve buscar inserção internacional inteligente que aproveite vantagens comparativas sem desindustrialização prematura ou subordinação a potências estrangeiras. Este patriotismo econômico difere radicalmente de protecionismo autárquico que empobrece consumidores e protege a ineficiência. Trata-se de pragmatismo estratégico que reconhece dimensões políticas e de segurança do comércio internacional, não apenas eficiência econômica de curto prazo.

A defesa de interesses nacionais exige diplomacia assertiva, investimento em pesquisa, desenvolvimento de tecnologias críticas e políticas industriais seletivas que fortaleçam setores estratégicos sem criar privilégios corporativos permanentes ou cartéis protegidos da competição externa.

Aspectos culturais e de comportamento

Defesa da vida desde a concepção

A vida humana possui uma dignidade intrínseca e inalienável desde o momento da concepção, conforme magistério católico e evidências embriológicas que confirmam o início de organismo humano geneticamente distinto, por óbvio, na fertilização. O aborto constitui homicídio de inocente indefeso, violando princípio fundamental que sustenta toda ordem jurídica civilizada: “não matarás”. “Cada um de nós foi um óvulo fertilizado, um embrião, uma simples célula. Tudo o que somos já está contido nesta simples célula: cor dos olhos, do cabelo, tamanho do pé, o biótipo etc. Nada foi acrescentado ao óvulo fertilizado que um dia fomos, exceto a nutrição”, vaticina o professor Felipe Aquino (Aquino, 2010, p. 16).

Argumentos consequencialistas sobre pobreza, violência sexual ou anomalias fetais não justificam a eliminação de uma vida humana, pois, evidentemente, o valor intrínseco da pessoa não depende de circunstâncias de concepção, condições socioeconômicas ou expectativa de vida. João Carlos Biagini sentencia com bastante bom senso: “Uma pessoa, sem ser especialista ou médico, com um pouco de discernimento, que viu um exame de ultrassom de uma criança em gestação, não poderá dizer que o ser em movimento somente se tornará humano depois de doze semanas.” (Biagini, 2017, p. 102).

Uma possível legalização do aborto em nosso país, certamente, irá corroer os fundamentos da sociedade. Ao estabelecer que alguns seres humanos podem ser eliminados por conveniência de terceiros, abre-se um precedente perigoso para eutanásia, infanticídio e eliminação de deficientes. “‘O extermínio de milhões de nascituros – reconheceu recentemente o Papa Bento XVI – em nome da luta à pobreza, constitui, na realidade, a eliminação dos mais pobres dentre os seres humanos’.” (Aquino, 2010, p. 122).

Ainda, não podemos esquecer da existência de sociedades que banalizaram o aborto e enfrentam crises demográficas intensas, como evidenciam taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição na Europa Ocidental. Todos estes países têm, em anos recentes, fecundidade inferior a 2,1: Alemanha, Itália, Espanha, França, Portugal, Áustria, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Noruega e Suíça. A solução autêntica para gestações indesejadas envolve fortalecimento de redes de apoio, ampliação de processos de adoção, políticas pronatalidade e transformação cultural que valorize a maternidade, não facilitação de homicídio pré-natal travestido de direito reprodutivo.

O Catecismo da Igreja Católica é absolutamente claro ao abordar o assunto do aborto. No parágrafo 2270, temos: “A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento de sua existência, o ser humano deve ver reconhecidos os seus direitos de pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo ser inocente à vida.” (Catecismo da Igreja Católica, 1999, p. 591).

Meritocracia e oportunidades básicas

O sistema meritocrático premia esforço, talento e produtividade individual, estabelecendo incentivos corretos para o desenvolvimento profissional, cognitivo, ou seja, para o fortalecimento do denominado capital humano. A igualdade autêntica é a de oportunidades, não de resultados, pois indivíduos possuem capacidades, preferências e disposições distintas que inevitavelmente produzem desigualdades. Não se conhece uma só sociedade totalmente igual. Cada um é um. “O trabalho que as várias pessoas são capazes de realizar é diferente, porque os homens não nascem iguais e porque a habilidade e a experiência que adquirem ao longo de suas vidas acentuam ainda mais essa diferença.” (Mises, 2010, p. 170).

Quase sempre, políticas que forçam igualdade de resultados por meio de cotas, redistribuição coercitiva ou engenharia social violam a liberdade individual, geram ineficiência econômica e recompensam as mediocridades.

A mobilidade social ascendente depende da qualidade das instituições e do crescimento econômico. Qualidade institucional e crescimento permitem que talentos e trabalhos, independentemente de origem, sejam reconhecidos e recompensados adequadamente. Podemos recorrer novamente ao economista austríaco Mises, pois ele enfatiza que os meios mais eficazes para a mobilidade social se deram a partir do capitalismo livre: “O constante progresso dessa tendência permitiu o crescimento populacional e a elevação do padrão de vida das massas a um nível sem precedente e até inimaginável. O trabalhador americano médio desfruta de comodidades que fariam inveja a Creso, Crasso, aos Médici e a Luís XVI.” (Mises, 2010, p. 323).

Em relação ao nosso Brasil, sabe-se que a nação sofre com corporativismos que protegem privilégios de funcionários públicos, profissões regulamentadas e grandes empresas conectadas ao Estado, bloqueando ascensão meritocrática. A universalização da educação básica de qualidade, a desburocratização que facilite o empreendedorismo e um mercado de trabalho flexível que permita a entrada de jovens e trabalhadores menos qualificados são as soluções adequadas.

Família natural como fundamento da sociedade

A família constituída por homem, mulher e filhos é uma instituição natural pré-política, inscrita na biologia humana e essencial para reprodução, socialização e transmissão de valores civilizacionais. Esse modelo familiar demonstrou, ao longo de milênios, a capacidade única de prover estabilidade emocional para crianças, complementaridade entre figuras paterna e materna e ambiente adequado para o desenvolvimento integral da personalidade.

Experimentos sociais que relativizam a estrutura familiar tradicional produziram consequências desastrosas: aumento de delinquência juvenil, problemas psicológicos e psiquiátricos, pobreza e desintegração.

Dados empíricos confirmam que crianças criadas em famílias com pai e mãe estáveis apresentam desempenho acadêmico superior, menor probabilidade de envolvimento criminal, melhor saúde mental e maior probabilidade de constituir famílias estáveis na vida adulta. Revisões da literatura em psicologia do desenvolvimento mostram que a ausência paterna prolongada é um fator de risco consistente para problemas emocionais, maior uso de drogas e comportamentos delinquentes na adolescência (Cecconello; De Antoni; Koller, 2010; Silva; Gomes; Silva, 2024).

A política pública deve incentivar a formação e preservação das famílias por meio de benefícios fiscais para casais com filhos, proteção legal do casamento tradicional e combate a ideologias que desconstroem papéis de gênero complementares.

A engenharia social progressista é um ataque tresloucado à família natural. Pretende minar o fundamento da sociedade, substituindo coesão e solidariedade familiar por dependência do Estado assistencialista.

Oposição à legalização das drogas

A legalização de drogas ilícitas representa rendição moral do Estado perante uma epidemia química que destrói vidas, desintegra famílias e corrói o tecido social com dependência que, praticamente, anula a liberdade humana. Drogas não são bens de consumo neutros, mas, sim, substâncias que escravizam usuários por meio de alterações neuroquímicas que eliminam a capacidade de autodeterminação racional, transformando pessoas em autômatos dominados por compulsão – verdadeiros zumbis. Basta ver, para comprovar o fato, as inúmeras “cracolândias” espalhadas pelo país.

A experiência de países que experimentaram liberalização demonstra aumento de consumo, especialmente entre jovens vulneráveis, proliferação de transtornos psiquiátricos e sobrecarga de sistemas de saúde pública – Uruguai, Holanda, Portugal.

A falácia do argumento libertário que invoca liberdade absoluta individual ignora que a dependência química destrói precisamente a autonomia individual, além de gerar externalidades massivas sobre familiares, comunidades e contribuintes que financiam tratamento de dependentes e consequências sociais do uso.

Segundo o que pensamos, a política adequada combina repressão ao tráfico com programas de tratamento compulsório para dependentes e prevenção educacional que enfatize malefícios objetivos das drogas. A descriminalização envia mensagem cultural devastadora de normalização de comportamento autodestrutivo, especialmente perniciosa em sociedade já fragilizada por crise de valores e dissolução de estruturas familiares que tradicionalmente protegiam jovens contra vícios.

Combate ao relativismo moral

Existem verdades objetivas sobre natureza humana, bem comum e moralidade, acessíveis pela razão natural e confirmadas pela revelação divina, que devem orientar legislação e formação de consensos sociais. O relativismo moral que nega a existência de padrões éticos universais produz tirania da maioria, impossibilita crítica racional de injustiças e dissolve fundamentos que sustentam direitos e a própria ciência. Se não há verdade objetiva, conceitos como dignidade humana, justiça e liberdade tornam-se meras convenções arbitrárias modificáveis conforme correlação de forças políticas; esse fato já é um desastre enorme.

A tradição católica e jusnaturalista identifica princípios morais permanentes por meio de reflexão filosófica rigorosa sobre a teleologia humana e a lei natural. Este realismo moral reconhece que ordem política justa deve conformar-se à realidade objetiva sobre o bem humano, não a preferências subjetivas ou construções sociais arbitrárias. Sociedades que abandonaram âncoras morais transcendentes experimentaram colapso ético evidenciado na banalização da vida, sexualização precoce de crianças, normalização de perversões e erosão de solidariedade comunitária.

Defesa da liberdade religiosa plena

A liberdade religiosa não se limita a culto privado, mas abrange o direito de indivíduos e instituições viverem publicamente conforme suas convicções, incluindo a recusa a participar de atos que violem a consciência moral. 

O secularismo agressivo que relega religião à esfera estritamente privada, proibindo símbolos religiosos em espaços públicos e forçando crentes a colaborar com práticas que consideram pecaminosas (fornecimento de contraceptivos, celebração de uniões homossexuais), constitui intolerância disfarçada de neutralidade. A religião é como que o fundamento da moralidade pública e das virtudes cívicas necessárias para manutenção de uma república livre e próspera.

As tentativas de criminalizar “discurso considerado de ódio”, por uma minoria fanática,frequentemente miram a expressão de doutrinas religiosas tradicionais sobre sexualidade, família e vida, transformando magistério milenar em crime de opinião. A proteção robusta da liberdade religiosa exige cláusulas de consciência que permitam a médicos recusar realizar abortos, a farmacêuticos recusar vender abortivos, a instituições religiosas discriminar em contratações conforme suas doutrinas e a pais educar seus filhos segundo valores de fé.

A erosão dessa liberdade fundamental ameaça não apenas crentes cristãos, mas toda a estrutura de direitos individuais, pois, se o Estado pode coagir a consciência em matéria religiosa, pode fazê-lo (e faz) em qualquer outro domínio. Veja, como exemplo, o que está acontecendo na Nicarágua.

Liberdade educacional

Estão roubando os filhos dos pais. Estes possuem direito primário, natural e inalienável de educar os filhos segundo as convicções religiosas, morais e pedagógicas, cabendo ao Estado função meramente subsidiária de facilitar este direito, não substituí-lo. Sistemas de vouchers ou financiamento per capita que permitam escolha entre escolas públicas, privadas, confessionais e homeschooling respeitam a liberdade parental e introduzem concorrência que eleva a qualidade educacional.

O monopólio estatal da educação produz doutrinação ideológica, mediocridade pedagógica e desrespeito a valores familiares, transformando escolas em instrumentos de engenharia social progressista ou palanques políticos.

Evidências internacionais demonstram que sistemas educacionais com maior liberdade de escolha apresentam melhores resultados em avaliações padronizadas, maior satisfação de pais e estudantes e custos inferiores por aluno.

O Brasil desperdiça recursos em educação pública de baixíssima qualidade, controlada por sindicatos que resistem a avaliações de desempenho e à aplicação de pedagogia baseada em evidências. Os recursos devem beneficiar diretamente o estudante, não o financiamento de estruturas burocráticas ineficientes divorciadas da realidade do mercado de trabalho, enfim, da vida mesmo. E ainda pior: são fábricas de militantes desempregados.

Rejeição à ideologia de gênero

A ideologia de gênero que postula separação radical entre sexo biológico e identidade de gênero, afirmando que esta última é construção social modificável por vontade individual, contradiz a realidade biológica, psicológica e antropológica sobre a natureza humana. 

A distinção sexual dos humanos não é construção cultural opressiva, mas, sim, realidade inscrita em cada célula do organismo, manifestada em diferenças anatômicas, hormonais, cognitivas e reprodutivas entre homens e mulheres. A negação dessa realidade, por meio de intervenções médicas que mutilam corpos saudáveis de adolescentes confusos, constitui abuso que produz danos irreversíveis, infertilidade permanente e sofrimento psicológico prolongado.

“Traçar as origens da ideologia de gênero não é tarefa fácil. Afinal, a diferença entre homens e mulheres parece inata à existência humana. Praticamente todas as culturas, dos gregos às tribos africanas, passando pelos impérios asiáticos, tinham divindades e forças femininas e masculinas refletidas no mundo. Até onde eu sabia, a definição de ‘mulher’ sempre foi presumida, dispensando explicações.” (Walsh, 2024, p. 19).

A imposição dessa ideologia, com legislação que criminaliza a discordância, produz currículos escolares que doutrinam crianças e jovens e protocolos médicos que facilitam a transição de menores sem consentimento parental. É algo que viola os direitos fundamentais de liberdade de expressão, liberdade religiosa e autoridade dos pais, aviltando as famílias.

Evidências de países que adotaram políticas transgeneristas mostram explosão de adolescentes, especialmente meninas, declarando disforia de gênero por contágio social, seguida de arrependimento massivo após procedimentos irreversíveis.

A proteção de crianças exige proibição de bloqueadores de puberdade, cirurgias de mudança de sexo em menores e doutrinação escolar, além de preservação de espaços segregados por sexo (banheiros, vestiários, competições esportivas) que protegem privacidade e segurança femininas.

Combate ao marxismo cultural

O marxismo cultural, que transpõe luta de classes econômica para conflitos identitários (raça, gênero, orientação sexual), dividindo sociedade em opressores e oprimidos e promovendo ressentimento grupal como motor de transformação social, representa uma grave ameaça civilizacional. Certamente, é comparável ao comunismo econômico e assassino.

Essa ideologia foi infiltrada em instituições educacionais, culturais e midiáticas, promovendo desconstrução das tradições ocidentais, relativismo moral, vitimização perpétua de minorias e criminalização da discordância como manifestação de preconceito.

Entretanto, há uma barreira quase intransponível para que essa revolução cultural invada e domine a sociedade brasileira por completo. Olavo de Carvalho observa o fenômeno com maestria no caso brasileiro: “‘A revolução cultural’, a ‘ocupação de espaços’ e a instrumentalização do Estado deram ao PT os meios de fazer uma ‘revolução por cima’, mas o deixaram desprovido de toda base popular autêntica. Ao longo dos anos, pesquisas atrás de pesquisas demonstravam que o povo brasileiro continuava acentuadamente conservador, odiando com todas as forças as políticas abortistas e a ‘ideologia de gênero’ que o partido comungava gostosamente com a elite financeira e com o ‘proletariado intelectual’ das universidades e do show business.” (Carvalho, 2019, p. 335).

A tal cultura do cancelamento destrói carreiras por opiniões heterodoxas, impõe diversidade forçada por meio de cotas raciais e de gênero. O marxismo cultural implica em uma revisão histórica que retrata a civilização ocidental exclusivamente por meio de eventos e fatos negativos (escravidão, colonialismo), enquanto ignora as contribuições únicas e valiosas (ciência, direitos humanos, prosperidade). Não há dúvidas razoáveis de que, na prática, o marxismo cultural visa minar a coesão social.

O combate efetivo a essa perniciosa ideologia exige a reconquista de instituições culturais por meio da presença conservadora em universidades, na mídia e no entretenimento. Em algum momento, deve haver financiamento de centros de pesquisa que produzam conhecimento científico, e não ideologias. É importante também a formação de intelectuais capazes de articular alternativas ao progressismo hegemônico.

A batalha cultural é uma questão de sobrevivência: sociedades que aceitam premissas marxistas, inevitavelmente, produzem políticas esquerdistas, infelizmente, mesmo quando elegem governos nominalmente conservadores. E é bom reforçar: conservadores devem engajar-se em produção cultural, jornalismo independente, educação alternativa e apologética que desmonte narrativas esquerdistas e apresente visão positiva da tradição ocidental cristã como fonte de liberdade, prosperidade e dignidade humana – exatamente tudo aquilo que nos diferencia de bárbaros.

Referências

ALEXANDER, Ralph B. Aquecimento global: alarme falso.Rio de Janeiro: Gryphus,2010.

AQUINO, Felipe. Aborto? Nunca!. Lorena: cléofas, 2010.

BERNARDIN, Pascal. O império ecológico ou a subversão da ecologia pelo globalismo.Campinas SP, Vide Editorial, 2015.

BIAGINI, João Carlos. Aborto, cristãos e ativismo do STF. São Paulo: All Print Editora,2017.

CAMPOS, Roberto. A lanterna na popa: memórias. Rio de Janeiro:Topbooks, 1994.

CAMPOS, Roberto. Na Virada do Milênio: ensaios. Rio de Janeiro:Topbooks, 1999.

CARVALHO, Olavo de. A cólera dos imbecis: cartas de um terráqueo ao planeta Brasil, Campinas SP, Vide Editorial, 2019.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1999.

CECCONELLO, Alessandra M.; DE ANTONI, Clarissa; KOLLER, Sílvia H. Ausência paterna e suas repercussões para o adolescente. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 16, 2010.

GOLDBERG, Jonah. O suicídio do Ocidente. Rio de Janeiro: Editora Record, 2020.

MISES, Ludwig von. Ação humana: um tratado de economia, São Paulo: Instituto Ludwig von Mises, 2010.

SILVA, Franciely Batista da; GOMES, Ana Beatriz de Medeiros; SILVA, Idalina Maria Alves da. As implicações psicológicas advindas da ausência paterna. Revista Casos e Consultoria, Natal, v. 15, 2024.

WALSH, Matt. O que é uma mulher?, São Paulo: LVM Editora, 2024.

WOODS JR., Thomas E. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental.São Paulo:Quadrante, 2012.

Combate à corrupção e ao corporativismo
Mercados funcionam adequadamente e de forma sólida quando há concorrência leal, transparência e punição rigorosa a desvios, captura regulatória e privilégios cartoriais que distorcem a alocação de recursos.
A corrupção não se limita a desvio de recursos públicos, mas inclui sistema generalizado de troca de favores entre Estado e grupos organizados que obtêm benefícios por meio de relações obscuras, e não de eficiência produtiva. É o famoso estamento burocrático. Este corporativismo sufoca concorrência, eleva preços, reduz inovação e perpetua a existência de protegidos politicamente.
O combate efetivo à corrupção exige redução do tamanho do Estado, pois, quanto maior o poder governamental de conceder benesses aos aliados, maiores os incentivos para corromper decisores públicos.
Reformas institucionais devem incluir transparência total de gastos públicos por meio de portais on-line acessíveis, eliminação de sigilo em contratos governamentais (salvo segurança nacional), criminalização de lobby não registrado e punição severa, incluindo confisco total de patrimônio de corruptos condenados. A impunidade brasileira, onde condenados recorrem indefinidamente e raramente cumprem penas, perpetua a cultura de ilicitude que corrói a confiança institucional.
Solidariedade versus assistencialismo e coletivismo
A justiça autêntica emerge de virtudes como caridade, responsabilidade pessoal, associativismo voluntário e solidariedade comunitária, não de engenharia social imposta coercitivamente pelo Estado. Os chamados corpos intermediários, como famílias, igrejas, associações e empresas, mediam a relação entre indivíduo e Estado, provendo redes de apoio mútuo e cultivando virtudes cívicas.
Pelo contrário, um Estado assistencialista, como é o nosso, que monopoliza a provisão de bem-estar, destrói os corpos intermediários fundamentais, atomizando indivíduos e criando dependência degradante que mina a dignidade humana. Por exemplo, há muitos que consideram o Bolsa Família como o maior programa de compra de votos no planeta, mas, independentemente desse fato, é um programa que distorce a realidade e gera, sim, um ambiente de satisfação em meros níveis de sobrevivência.
Em várias partes do Brasil, especialmente no Norte e Nordeste, hoje há mais famílias recebendo a bolsa do que pessoas empregadas com carteira assinada; isso mostra a distorção profunda do modelo econômico e de incentivos do país. Em fevereiro de 2026, eram 18,8 milhões de famílias no programa contra 48,8 milhões de empregos formais, sendo que, em nove estados – Maranhão, Pará, Piauí, Bahia, Paraíba, Amazonas, Alagoas, Acre e Amapá – o Bolsa Família já superou o total de trabalhadores com carteira (dados de fevereiro de 2026 do Novo Caged/MTE e do Bolsa Família).
Em casos extremos como o Maranhão, são 1.156.990 beneficiários para apenas 696.947 empregos formais, enquanto no outro extremo, estados do Sul e Sudeste, como São Paulo, têm milhões de empregos a mais que beneficiários, com superávit de 12,5 milhões de trabalhadores com carteira na comparação com as famílias no programa.
É fácil perceber que esse quadro é alarmante porque significa que, em largas faixas do território, o Estado tornou-se a principal folha de pagamento, deslocando o protagonismo do trabalho e da iniciativa privada, já que, além dos 18,8 milhões de beneficiários registrados em abril de 2026, milhares de municípios ainda têm mais Bolsa Família do que empregos formais, concentrados no Norte e Nordeste. Somos um país campeão de assistencialismo, populismo fiscal e inércia social.
A expansão contínua e sem critérios claros do Bolsa Família, em vez de funcionar como ponte temporária (porta de saída) para o emprego, acaba se consolidando como um sistema de dependência crônica justamente onde governos fracassam em garantir segurança jurídica e ambiente pró-mercado para geração de empresas e vagas formais, como indicam as diferenças gritantes entre estados do Norte e Nordeste e economias mais dinâmicas, como as do Sul e do Sudeste.
Historicamente, sociedades cristãs e católicas desenvolveram instituições fincadas na caridade e no saber. Impressionantes hospitais, orfanatos, universidades e escolas, de iniciativa privada e religiosa, demonstram a superioridade da caridade voluntária sobre a burocracia estatal. O welfare state moderno não apenas é financeiramente insustentável, mas corrói o capital social ao substituir responsabilidade pessoal por direitos a benefícios, transformando cidadãos em clientes do Estado paternalista.
Thomas E. Woods Jr., em sua obra-prima Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, aponta para a criação das universidades: “O que Knight e Lomas não mencionam é que, durante essa ‘Idade das Trevas’, a Igreja desenvolveu o sistema universitário europeu, autêntico dom da civilização ocidental ao mundo. Muitos historiadores se maravilham diante da ampla liberdade e autonomia com que se debatiam as questões naquelas universidades. E foi a exaltação da razão humana e de suas capacidades, o compromisso com um debate rigoroso e racional, a promoção da pesquisa intelectual e do intercâmbio entre os estudantes dessas universidades patrocinadas pela Igreja – foi isso que forneceu as bases para a Revolução Científica.” (Woods Jr., 2012, p. 7).
A reconstrução de uma sociedade justa exige o renascimento de virtudes de caridade prática e o fortalecimento das famílias e comunidades locais. Ao Estado resta a função subsidiária de assistir genuinamente incapazes; o Estado não pode subsidiar ócio voluntário, que aos poucos destrói os bons valores que fundamentam a sociedade.
É preciso acrescentar que uma educação realmente de qualidade, que forme técnicos e profissionais, ajudaria as famílias a encontrar portas de saída, para que, de fato, o benefício seja temporário. Hoje, é preciso concordar que em boa parte dos casos o que se tem é um gigante curral eleitoral.

Um não ao ambientalismo radical
O ambientalismo ideologizado, que subordina o desenvolvimento humano à preservação ambiental absoluta, tratando a humanidade como câncer e o progresso tecnológico como ameaça existencial, inverte a hierarquia adequada de valores. Claro que a criação material existe para servir bens aos humanos; devemos produzir e explorar nossos recursos para que virem riquezas de fato, para o florescimento de gerações futuras, impedindo o congelamento da economia e com menos amarras irracionais.

Pascal Bernardin, em O império ecológico, expõe com clareza essa inversão de valores: “A análise sistêmica, utilizada de forma abusiva, provoca, portanto, uma modificação profunda na concepção do homem, que, de ser espiritual, se vê subjugado à escala de um mero cupim (…) Os problemas sistêmicos, reais, exagerados ou imaginários, constituem alavancas ideológicas incomparáveis, que permitem a intervenção em todos os domínios, sob pretexto os mais fúteis e descabidos. Dessa forma será possível, por exemplo, reformar as instituições internacionais sob o pretexto de ameaças ecológicas.” (Bernardin, 2015, pp. 95-96).

O catastrofismo climático que prediz uma espécie de apocalipse iminente sem reformulação radical da civilização industrial replica a estrutura de cultos milenaristas, substituindo salvação religiosa por seita ecológica, onde a razão não prevalece. Além disso, é a mais completa e profunda mentalidade revolucionária. Tem em sua expressão máxima o tal do aquecimento global, agora substituído pelo vago termo de “mudança climática”.

Ralph B. Alexander, em Aquecimento global: alarme falso, resume bem esses fatos: “Por conseguinte, grande parte do ônus financeiro desse empreendimento global, totalmente equivocado, de controlar as emissões de CO₂ recai sobre a população de baixa renda. O custo de limitar o carbono será devastador, sobretudo para os países em desenvolvimento, que já lutam com intuito de alcançar os vizinhos industrializados.” (Alexander, 2010, p. 181).
As políticas ambientalistas radicais, impostas por burocracia internacional não eleita, prejudicam desproporcionalmente os países em desenvolvimento, negando aos pobres acesso à energia barata e a tecnologias que permitiram o enriquecimento de nações europeias, EUA e Canadá, por exemplo.

Diríamos que o Brasil não deve sacrificar a exploração racional de recursos naturais, o agronegócio e o desenvolvimento de infraestrutura logística e energética no altar de uma ideologia (o ambientalismo) que beneficia interesses geopolíticos de potências estrangeiras por meio de ONGs desejosas por congelar o crescimento e o fortalecimento de competidores, para estabelecer incríveis reservas de mercado.

A conservação autêntica é compatível com o uso de recursos por meio de direitos de propriedade bem definidos, segurança jurídica, tecnologia moderna e prudência.

Aspectos econômicos
Livre mercado e propriedade privada
A propriedade privada dos meios de produção constitui direito natural que antecede o Estado, protegendo a liberdade individual contra tirania coletivista e permitindo que indivíduos colham os frutos de seu trabalho. Também devemos afirmar que o sistema de preços em mercados livres processa informações dispersas sobre preferências e escassez com eficiência impossível ao planejamento central, conforme demonstrado pela Escola Austríaca de Economia.

Certamente, a apropriação privada de resultados incentiva investimento, inovação tecnológica e uso racional de recursos, enquanto a propriedade coletiva gera tragédia dos comuns, totalitarismos e destruição econômica, como aconteceu em inúmeros países, no passado e recentemente, que insistiram nessa via do coletivismo.

Nas palavras do nosso maior economista liberal, Roberto Campos: “O colapso do socialismo não foi mero acidente histórico, resultante da barbárie da União Soviética ou da perversão de carniceiros como Stalin e Mao Tsé-Tung. Era algo cientificamente previsível. Os iludidos cientistas sociais teriam certamente chegado a essa conclusão se, ao invés de treslerem a história, tivessem lido os grandes liberais austríacos. Muito antes das fanfarronadas de Kruschev, já na década dos vinte, Ludwig von Mises demonstrava a inviabilidade do planejamento central sem a sinalização dos preços do mercado.” (Campos, 1999, p. 44).

Empiricamente, países com instituições que protegem direitos de propriedade apresentam PIB per capita significativamente superior àqueles com insegurança jurídica sobre ativos. O Brasil ocupa posição intermediária em rankings de proteção à propriedade, explicando parcialmente seu atraso em relação às economias desenvolvidas.

Vale a pena abordarmos o Índice Internacional de Direitos de Propriedade (International Property Rights Index – IPRI). Ele é utilizado para comparar a proteção à propriedade privada entre países. É anual e produzido pela Property Rights Alliance, que mede o quão bem cada país protege direitos de propriedade (física e intelectual). A edição mais recente avaliou 125 países, cobrindo quase todo o PIB mundial. O índice é composto por três grandes blocos de indicadores: ambiente jurídico e político, de independência do Judiciário, confiança nos tribunais, estabilidade política, nível de corrupção; proteção da propriedade material (imóveis, bens), qualidade dos registros de propriedade e acesso ao crédito; proteção de patentes, marcas e direitos autorais, nível de pirataria.

Países como Finlândia, Noruega, Suécia, Suíça, Cingapura e Nova Zelândia aparecem sistematicamente entre os primeiros colocados. São países que combinam Judiciário relativamente independente e previsível com alta proteção da propriedade física, por meio de baixa probabilidade de expropriação e boa segurança de registro e, por fim, boa proteção da propriedade intelectual, com sistemas de patentes e marcas eficientes.
O Brasil figura em posições medianas ou baixas. Em 2023, nosso país apareceu em 83º lugar entre 125 nações, indicando piora relativa no ranking global. Os pontos mais negativos são o ambiente político e jurídico, a estabilidade institucional e os problemas em registro de propriedade (regularização fundiária, insegurança jurídica, por exemplo).
O estudo implica alertas enfáticos sobre nossos eternos problemas. Há um ambiente refratário a investimentos, caracterizado como insegurança jurídica e fuga de capitais. O efeito de instabilidade política e de decisões judiciais mina a confiança na proteção à propriedade privada. O Brasil, com seu já entranhado intervencionismo, aparece atrás de países formalmente socialistas em direito de propriedade.

A defesa irrestrita da propriedade privada reconhece que sua limitação deve ocorrer apenas em casos excepcionais de utilidade pública, mediante justa indenização e devido processo legal.

Ludwig von Mises via desta forma a função da propriedade privada: “Todas as civilizações, até os dias de hoje, foram baseadas na propriedade privada dos meios de produção. No passado, civilização e propriedade privada sempre andaram juntas. Aqueles que sustentam que a economia é uma ciência experimental, e apesar disso recomendam o controle estatal dos meios de produção, se contradizem lamentavelmente. Se pudéssemos extrair algum ensinamento da experiência histórica, este seria o de que a propriedade privada está inextricavelmente ligada à civilização.” (Mises, 2010, p. 322).

Responsabilidade fiscal e Estado mínimo
A responsabilidade fiscal é premissa indispensável para liberdade econômica, crescimento e proteção de gerações futuras contra a socialização de dívidas contraídas ao deus-dará. Estados que gastam sistematicamente acima de sua arrecadação geram graves problemas e desvios no setor privado, pressionam a taxa de juros, aceleram a inflação e reduzem os investimentos produtivos. Essa é uma lição que alguns governos insistem em não aprender. O Brasil apresenta carga tributária de 33% do PIB, em média; pior, devolve serviços públicos de qualidade inferior, evidenciando desperdício monumental e evidente má alocação de recursos.

Citar Roberto Campos, com toda a sua fina ironia, é oportuno: “Como os gastos públicos são feitos com dinheiro dos outros, dão a impressão de ser de graça. Não é fácil perceber que são ‘custos’ que alguém vai ter de pagar. Essa anestesia faz a festa dos políticos. Gastar não dói. Quem gasta, no governo, não é quem arrecada. Por isso, quem tem de controlar o cofre é o grande chato de qualquer governo, o estraga-festa.” (Campos, 1999, p. 220).

O Estado mínimo, defendido pelo liberalismo, concentra-se apenas em funções essenciais: segurança pública, justiça, defesa nacional e financiamento de infraestrutura básica que mercados não proveem adequadamente, como no caso do saneamento básico da Amazônia. Tudo o que excede este núcleo deveria ser privatizado, terceirizado ou descontinuado, liberando recursos para redução da carga tributária, assim estimulando consumo, investimentos e abertura de empresas. A experiência de grande parte dos países livres demonstra que contenção de gastos e simplificação tributária produzem crescimento econômico e, consequentemente, melhoria de indicadores sociais.

O excesso de regulamentação, as amarras burocráticas ao empreendedor e a imposição de toda sorte de obstáculos minam a criatividade da sociedade e o ímpeto próprio e necessário dos empresários, tornando o país mais pobre e estatizante, isso para atender ao afã torpe de certos setores em substituir o mercado pelo Estado obeso e paquidérmico.
Aprendemos com Mises que isso é uma enorme distorção, pois: “A economia de mercado é um modo de agir, fruto da ação do homem sob a divisão do trabalho. Todavia, isto não significa que seja algo acidental ou artificial, algo que possa ser substituído por outro modo de agir qualquer. A economia de mercado é o produto de um longo processo evolucionário (…). É, por assim dizer, a estratégia cuja aplicação permitiu ao homem progredir triunfalmente do estado selvagem à civilização.” (Mises, 2010, p. 324).

Livre comércio e desregulamentação
A remoção de barreiras comerciais e a redução de regulamentações governamentais promovem especialização produtiva conforme vantagens comparativas, maximizando a eficiência econômica global. O protecionismo comercial beneficia produtores ineficientes às custas de consumidores, que pagam preços artificialmente elevados, gerando perda líquida de bem-estar social. A história econômica recente demonstra que países que abriram suas economias experimentaram crescimento acelerado (Coreia do Sul, Chile, Irlanda), enquanto nações protecionistas estagnaram (Cuba, Venezuela, Brasil).
Roberto Campos, em sua autobiografia histórica A lanterna na popa, diagnostica, como um verdadeiro lamento, o porquê de o Brasil ter patinado, sendo, por muitas décadas, ensimesmado, fechado, protecionista e xenófobo – de certa forma, o que somos até hoje: “O Brasil, num autoisolamento decorrente de políticas errôneas, ficou marginalizado na terceira onda mundial de crescimento, entre 1984 e 1990, quando subiram ao proscênio os países asiáticos.” (Campos, 1994, p. 21).

A regulamentação excessiva funciona como barreira de entrada que protege empresas já estabelecidas. É para impedir a competição, elevando os custos e inviabilizando pequenos e médios empreendedores. O Brasil possui uma das burocracias mais pesadas do mundo, exigindo meses para abertura de empresas e centenas de horas anuais para cumprimento de obrigações tributárias.

Os números são notadamente absurdos. O Índice de Burocracia Ibero-Americano 2023, da Universidade Internacional da Flórida, calcula que abrir um negócio no Brasil consome cerca de 51 dias de labuta, o equivalente a 410 horas de burocracia entre registros, licenças, fiscalizações e cadastros. Ainda segundo outro relatório, o Doing Business, do Banco Mundial, as empresas brasileiras gastam cerca de 1.500 horas por ano apenas para apurar, declarar e pagar tributos – é o maior tempo do mundo, contra média global em torno de 200 a 250 horas.

A desregulamentação inteligente não elimina proteções legítimas contra fraude ou externalidades negativas, mas remove controles desnecessários que sufocam a inovação e encarecem os produtos sem benefício proporcional para a sociedade.

Princípio da destinação universal dos bens
Embora a propriedade privada seja direito natural legítimo, conservadores acreditam que os frutos da produção devem servir ao bem comum por meio de geração de empregos, filantropia voluntária e investimentos produtivos; certamente, não por meio de redistribuição coercitiva estatal.

O conservadorismo rejeita tanto o coletivismo que anula a propriedade quanto o individualismo radical que ignora a dimensão social da riqueza. O empresário deve reconhecer que o lucro é legítimo quando obtido honestamente e dirigido a fins que beneficiam a sociedade, incluindo os trabalhadores, os consumidores e a comunidade.
A caridade autêntica é voluntária e nasce da virtude pessoal, não da coerção tributária que transfere aos burocratas a decisão sobre uso de recursos alheios. Como já constatado, a experiência histórica demonstra que sociedades cristãs atendem os necessitados mais eficazmente do que Estados assistencialistas. Ao fim e ao cabo, o assistencialismo perpetua a dependência e destrói a dignidade dos indivíduos pelo paternalismo degradante, tão típico dos governos de esquerda pelo mundo afora.

Patriotismo econômico
Cooperação internacional e abertura comercial devem sempre observar a soberania nacional e o desenvolvimento de capacidades produtivas estrategicamente relevantes, evitando dependência externa absoluta em setores críticos para a segurança nacional.
Consideramos que o livre comércio é benéfico e fundamental, mas países devem preservar autonomia em defesa, energia, alimentos e tecnologias sensíveis, impedindo que globalização irrestrita torne nações vulneráveis a chantagens geopolíticas.

O Brasil deve buscar inserção internacional inteligente que aproveite vantagens comparativas sem desindustrialização prematura ou subordinação a potências estrangeiras. Este patriotismo econômico difere radicalmente de protecionismo autárquico que empobrece consumidores e protege a ineficiência. Trata-se de pragmatismo estratégico que reconhece dimensões políticas e de segurança do comércio internacional, não apenas eficiência econômica de curto prazo.

A defesa de interesses nacionais exige diplomacia assertiva, investimento em pesquisa, desenvolvimento de tecnologias críticas e políticas industriais seletivas que fortaleçam setores estratégicos sem criar privilégios corporativos permanentes ou cartéis protegidos da competição externa.

Aspectos culturais e de comportamento
Defesa da vida desde a concepção
A vida humana possui uma dignidade intrínseca e inalienável desde o momento da concepção, conforme magistério católico e evidências embriológicas que confirmam o início de organismo humano geneticamente distinto, por óbvio, na fertilização. O aborto constitui homicídio de inocente indefeso, violando princípio fundamental que sustenta toda ordem jurídica civilizada: “não matarás”. “Cada um de nós foi um óvulo fertilizado, um embrião, uma simples célula. Tudo o que somos já está contido nesta simples célula: cor dos olhos, do cabelo, tamanho do pé, o biótipo etc. Nada foi acrescentado ao óvulo fertilizado que um dia fomos, exceto a nutrição”, vaticina o professor Felipe Aquino (Aquino, 2010, p. 16).

Argumentos consequencialistas sobre pobreza, violência sexual ou anomalias fetais não justificam a eliminação de uma vida humana, pois, evidentemente, o valor intrínseco da pessoa não depende de circunstâncias de concepção, condições socioeconômicas ou expectativa de vida. João Carlos Biagini sentencia com bastante bom senso: “Uma pessoa, sem ser especialista ou médico, com um pouco de discernimento, que viu um exame de ultrassom de uma criança em gestação, não poderá dizer que o ser em movimento somente se tornará humano depois de doze semanas.” (Biagini, 2017, p. 102).

Uma possível legalização do aborto em nosso país, certamente, irá corroer os fundamentos da sociedade. Ao estabelecer que alguns seres humanos podem ser eliminados por conveniência de terceiros, abre-se um precedente perigoso para eutanásia, infanticídio e eliminação de deficientes. “‘O extermínio de milhões de nascituros – reconheceu recentemente o Papa Bento XVI – em nome da luta à pobreza, constitui, na realidade, a eliminação dos mais pobres dentre os seres humanos’.” (Aquino, 2010, p. 122).
Ainda, não podemos esquecer da existência de sociedades que banalizaram o aborto e enfrentam crises demográficas intensas, como evidenciam taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição na Europa Ocidental. Todos estes países têm, em anos recentes, fecundidade inferior a 2,1: Alemanha, Itália, Espanha, França, Portugal, Áustria, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Noruega e Suíça. A solução autêntica para gestações indesejadas envolve fortalecimento de redes de apoio, ampliação de processos de adoção, políticas pronatalidade e transformação cultural que valorize a maternidade, não facilitação de homicídio pré-natal travestido de direito reprodutivo.

O Catecismo da Igreja Católica é absolutamente claro ao abordar o assunto do aborto. No parágrafo 2270, temos: “A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento de sua existência, o ser humano deve ver reconhecidos os seus direitos de pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo ser inocente à vida.” (Catecismo da Igreja Católica, 1999, p. 591).

Meritocracia e oportunidades básicas
O sistema meritocrático premia esforço, talento e produtividade individual, estabelecendo incentivos corretos para o desenvolvimento profissional, cognitivo, ou seja, para o fortalecimento do denominado capital humano. A igualdade autêntica é a de oportunidades, não de resultados, pois indivíduos possuem capacidades, preferências e disposições distintas que inevitavelmente produzem desigualdades. Não se conhece uma só sociedade totalmente igual. Cada um é um. “O trabalho que as várias pessoas são capazes de realizar é diferente, porque os homens não nascem iguais e porque a habilidade e a experiência que adquirem ao longo de suas vidas acentuam ainda mais essa diferença.” (Mises, 2010, p. 170).

Quase sempre, políticas que forçam igualdade de resultados por meio de cotas, redistribuição coercitiva ou engenharia social violam a liberdade individual, geram ineficiência econômica e recompensam as mediocridades.

A mobilidade social ascendente depende da qualidade das instituições e do crescimento econômico. Qualidade institucional e crescimento permitem que talentos e trabalhos, independentemente de origem, sejam reconhecidos e recompensados adequadamente. Podemos recorrer novamente ao economista austríaco Mises, pois ele enfatiza que os meios mais eficazes para a mobilidade social se deram a partir do capitalismo livre: “O constante progresso dessa tendência permitiu o crescimento populacional e a elevação do padrão de vida das massas a um nível sem precedente e até inimaginável. O trabalhador americano médio desfruta de comodidades que fariam inveja a Creso, Crasso, aos Médici e a Luís XVI.” (Mises, 2010, p. 323).

Em relação ao nosso Brasil, sabe-se que a nação sofre com corporativismos que protegem privilégios de funcionários públicos, profissões regulamentadas e grandes empresas conectadas ao Estado, bloqueando ascensão meritocrática. A universalização da educação básica de qualidade, a desburocratização que facilite o empreendedorismo e um mercado de trabalho flexível que permita a entrada de jovens e trabalhadores menos qualificados são as soluções adequadas.

Família natural como fundamento da sociedade
A família constituída por homem, mulher e filhos é uma instituição natural pré-política, inscrita na biologia humana e essencial para reprodução, socialização e transmissão de valores civilizacionais. Esse modelo familiar demonstrou, ao longo de milênios, a capacidade única de prover estabilidade emocional para crianças, complementaridade entre figuras paterna e materna e ambiente adequado para o desenvolvimento integral da personalidade.

Experimentos sociais que relativizam a estrutura familiar tradicional produziram consequências desastrosas: aumento de delinquência juvenil, problemas psicológicos e psiquiátricos, pobreza e desintegração.

Dados empíricos confirmam que crianças criadas em famílias com pai e mãe estáveis apresentam desempenho acadêmico superior, menor probabilidade de envolvimento criminal, melhor saúde mental e maior probabilidade de constituir famílias estáveis na vida adulta. Revisões da literatura em psicologia do desenvolvimento mostram que a ausência paterna prolongada é um fator de risco consistente para problemas emocionais, maior uso de drogas e comportamentos delinquentes na adolescência (Cecconello; De Antoni; Koller, 2010; Silva; Gomes; Silva, 2024).

A política pública deve incentivar a formação e preservação das famílias por meio de benefícios fiscais para casais com filhos, proteção legal do casamento tradicional e combate a ideologias que desconstroem papéis de gênero complementares.
A engenharia social progressista é um ataque tresloucado à família natural. Pretende minar o fundamento da sociedade, substituindo coesão e solidariedade familiar por dependência do Estado assistencialista.

Oposição à legalização das drogas
A legalização de drogas ilícitas representa rendição moral do Estado perante uma epidemia química que destrói vidas, desintegra famílias e corrói o tecido social com dependência que, praticamente, anula a liberdade humana. Drogas não são bens de consumo neutros, mas, sim, substâncias que escravizam usuários por meio de alterações neuroquímicas que eliminam a capacidade de autodeterminação racional, transformando pessoas em autômatos dominados por compulsão – verdadeiros zumbis. Basta ver, para comprovar o fato, as inúmeras “cracolândias” espalhadas pelo país.

A experiência de países que experimentaram liberalização demonstra aumento de consumo, especialmente entre jovens vulneráveis, proliferação de transtornos psiquiátricos e sobrecarga de sistemas de saúde pública – Uruguai, Holanda, Portugal.
A falácia do argumento libertário que invoca liberdade absoluta individual ignora que a dependência química destrói precisamente a autonomia individual, além de gerar externalidades massivas sobre familiares, comunidades e contribuintes que financiam tratamento de dependentes e consequências sociais do uso.

Segundo o que pensamos, a política adequada combina repressão ao tráfico com programas de tratamento compulsório para dependentes e prevenção educacional que enfatize malefícios objetivos das drogas. A descriminalização envia mensagem cultural devastadora de normalização de comportamento autodestrutivo, especialmente perniciosa em sociedade já fragilizada por crise de valores e dissolução de estruturas familiares que tradicionalmente protegiam jovens contra vícios.

Combate ao relativismo moral
Existem verdades objetivas sobre natureza humana, bem comum e moralidade, acessíveis pela razão natural e confirmadas pela revelação divina, que devem orientar legislação e formação de consensos sociais. O relativismo moral que nega a existência de padrões éticos universais produz tirania da maioria, impossibilita crítica racional de injustiças e dissolve fundamentos que sustentam direitos e a própria ciência. Se não há verdade objetiva, conceitos como dignidade humana, justiça e liberdade tornam-se meras convenções arbitrárias modificáveis conforme correlação de forças políticas; esse fato já é um desastre enorme.

A tradição católica e jusnaturalista identifica princípios morais permanentes por meio de reflexão filosófica rigorosa sobre a teleologia humana e a lei natural. Este realismo moral reconhece que ordem política justa deve conformar-se à realidade objetiva sobre o bem humano, não a preferências subjetivas ou construções sociais arbitrárias. Sociedades que abandonaram âncoras morais transcendentes experimentaram colapso ético evidenciado na banalização da vida, sexualização precoce de crianças, normalização de perversões e erosão de solidariedade comunitária.

Defesa da liberdade religiosa plena
A liberdade religiosa não se limita a culto privado, mas abrange o direito de indivíduos e instituições viverem publicamente conforme suas convicções, incluindo a recusa a participar de atos que violem a consciência moral.

O secularismo agressivo que relega religião à esfera estritamente privada, proibindo símbolos religiosos em espaços públicos e forçando crentes a colaborar com práticas que consideram pecaminosas (fornecimento de contraceptivos, celebração de uniões homossexuais), constitui intolerância disfarçada de neutralidade. A religião é como que o fundamento da moralidade pública e das virtudes cívicas necessárias para manutenção de uma república livre e próspera.

As tentativas de criminalizar “discurso considerado de ódio”, por uma minoria fanática, frequentemente miram a expressão de doutrinas religiosas tradicionais sobre sexualidade, família e vida, transformando magistério milenar em crime de opinião. A proteção robusta da liberdade religiosa exige cláusulas de consciência que permitam a médicos recusar realizar abortos, a farmacêuticos recusar vender abortivos, a instituições religiosas discriminar em contratações conforme suas doutrinas e a pais educar seus filhos segundo valores de fé.

A erosão dessa liberdade fundamental ameaça não apenas crentes cristãos, mas toda a estrutura de direitos individuais, pois, se o Estado pode coagir a consciência em matéria religiosa, pode fazê-lo (e faz) em qualquer outro domínio. Veja, como exemplo, o que está acontecendo na Nicarágua.

Liberdade educacional
Estão roubando os filhos dos pais. Estes possuem direito primário, natural e inalienável de educar os filhos segundo as convicções religiosas, morais e pedagógicas, cabendo ao Estado função meramente subsidiária de facilitar este direito, não substituí-lo. Sistemas de vouchers ou financiamento per capita que permitam escolha entre escolas públicas, privadas, confessionais e homeschooling respeitam a liberdade parental e introduzem concorrência que eleva a qualidade educacional.

O monopólio estatal da educação produz doutrinação ideológica, mediocridade pedagógica e desrespeito a valores familiares, transformando escolas em instrumentos de engenharia social progressista ou palanques políticos.
Evidências internacionais demonstram que sistemas educacionais com maior liberdade de escolha apresentam melhores resultados em avaliações padronizadas, maior satisfação de pais e estudantes e custos inferiores por aluno.

O Brasil desperdiça recursos em educação pública de baixíssima qualidade, controlada por sindicatos que resistem a avaliações de desempenho e à aplicação de pedagogia baseada em evidências. Os recursos devem beneficiar diretamente o estudante, não o financiamento de estruturas burocráticas ineficientes divorciadas da realidade do mercado de trabalho, enfim, da vida mesmo. E ainda pior: são fábricas de militantes desempregados.

Rejeição à ideologia de gênero
A ideologia de gênero que postula separação radical entre sexo biológico e identidade de gênero, afirmando que esta última é construção social modificável por vontade individual, contradiz a realidade biológica, psicológica e antropológica sobre a natureza humana.
A distinção sexual dos humanos não é construção cultural opressiva, mas, sim, realidade inscrita em cada célula do organismo, manifestada em diferenças anatômicas, hormonais, cognitivas e reprodutivas entre homens e mulheres. A negação dessa realidade, por meio de intervenções médicas que mutilam corpos saudáveis de adolescentes confusos, constitui abuso que produz danos irreversíveis, infertilidade permanente e sofrimento psicológico prolongado.

“Traçar as origens da ideologia de gênero não é tarefa fácil. Afinal, a diferença entre homens e mulheres parece inata à existência humana. Praticamente todas as culturas, dos gregos às tribos africanas, passando pelos impérios asiáticos, tinham divindades e forças femininas e masculinas refletidas no mundo. Até onde eu sabia, a definição de ‘mulher’ sempre foi presumida, dispensando explicações.” (Walsh, 2024, p. 19).

A imposição dessa ideologia, com legislação que criminaliza a discordância, produz currículos escolares que doutrinam crianças e jovens e protocolos médicos que facilitam a transição de menores sem consentimento parental. É algo que viola os direitos fundamentais de liberdade de expressão, liberdade religiosa e autoridade dos pais, aviltando as famílias.

Evidências de países que adotaram políticas transgeneristas mostram explosão de adolescentes, especialmente meninas, declarando disforia de gênero por contágio social, seguida de arrependimento massivo após procedimentos irreversíveis.
A proteção de crianças exige proibição de bloqueadores de puberdade, cirurgias de mudança de sexo em menores e doutrinação escolar, além de preservação de espaços segregados por sexo (banheiros, vestiários, competições esportivas) que protegem privacidade e segurança femininas.

Combate ao marxismo cultural
O marxismo cultural, que transpõe luta de classes econômica para conflitos identitários (raça, gênero, orientação sexual), dividindo sociedade em opressores e oprimidos e promovendo ressentimento grupal como motor de transformação social, representa uma grave ameaça civilizacional. Certamente, é comparável ao comunismo econômico e assassino.

Essa ideologia foi infiltrada em instituições educacionais, culturais e midiáticas, promovendo desconstrução das tradições ocidentais, relativismo moral, vitimização perpétua de minorias e criminalização da discordância como manifestação de preconceito.
Entretanto, há uma barreira quase intransponível para que essa revolução cultural invada e domine a sociedade brasileira por completo. Olavo de Carvalho observa o fenômeno com maestria no caso brasileiro: “‘A revolução cultural’, a ‘ocupação de espaços’ e a instrumentalização do Estado deram ao PT os meios de fazer uma ‘revolução por cima’, mas o deixaram desprovido de toda base popular autêntica. Ao longo dos anos, pesquisas atrás de pesquisas demonstravam que o povo brasileiro continuava acentuadamente conservador, odiando com todas as forças as políticas abortistas e a ‘ideologia de gênero’ que o partido comungava gostosamente com a elite financeira e com o ‘proletariado intelectual’ das universidades e do show business.” (Carvalho, 2019, p. 335).

A tal cultura do cancelamento destrói carreiras por opiniões heterodoxas, impõe diversidade forçada por meio de cotas raciais e de gênero. O marxismo cultural implica em uma revisão histórica que retrata a civilização ocidental exclusivamente por meio de eventos e fatos negativos (escravidão, colonialismo), enquanto ignora as contribuições únicas e valiosas (ciência, direitos humanos, prosperidade). Não há dúvidas razoáveis de que, na prática, o marxismo cultural visa minar a coesão social.

O combate efetivo a essa perniciosa ideologia exige a reconquista de instituições culturais por meio da presença conservadora em universidades, na mídia e no entretenimento. Em algum momento, deve haver financiamento de centros de pesquisa que produzam conhecimento científico, e não ideologias. É importante também a formação de intelectuais capazes de articular alternativas ao progressismo hegemônico.

A batalha cultural é uma questão de sobrevivência: sociedades que aceitam premissas marxistas, inevitavelmente, produzem políticas esquerdistas, infelizmente, mesmo quando elegem governos nominalmente conservadores. E é bom reforçar: conservadores devem engajar-se em produção cultural, jornalismo independente, educação alternativa e apologética que desmonte narrativas esquerdistas e apresente visão positiva da tradição ocidental cristã como fonte de liberdade, prosperidade e dignidade humana – exatamente tudo aquilo que nos diferencia de bárbaros.

Referências
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AQUINO, Felipe. Aborto? Nunca!. Lorena: cléofas, 2010.
BERNARDIN, Pascal. O império ecológico ou a subversão da ecologia pelo globalismo. Campinas SP, Vide Editorial, 2015.
BIAGINI, João Carlos. Aborto, cristãos e ativismo do STF. São Paulo: All Print Editora, 2017.
CAMPOS, Roberto. A lanterna na popa: memórias. Rio de Janeiro:Topbooks, 1994.
CAMPOS, Roberto. Na Virada do Milênio: ensaios. Rio de Janeiro:Topbooks, 1999.
CARVALHO, Olavo de. A cólera dos imbecis: cartas de um terráqueo ao planeta Brasil, Campinas SP, Vide Editorial, 2019.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1999.
CECCONELLO, Alessandra M.; DE ANTONI, Clarissa; KOLLER, Sílvia H. Ausência paterna e suas repercussões para o adolescente. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 16, 2010.
GOLDBERG, Jonah. O suicídio do Ocidente. Rio de Janeiro: Editora Record, 2020.
MISES, Ludwig von. Ação humana: um tratado de economia, São Paulo: Instituto Ludwig von Mises, 2010.
SILVA, Franciely Batista da; GOMES, Ana Beatriz de Medeiros; SILVA, Idalina Maria Alves da. As implicações psicológicas advindas da ausência paterna. Revista Casos e Consultoria, Natal, v. 15, 2024.
WALSH, Matt. O que é uma mulher?, São Paulo: LVM Editora, 2024.
WOODS JR., Thomas E. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental.São Paulo:Quadrante, 2012.

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