Carlos Henrique Araújo, mestre em Sociologia e Curador da Academia da Direita
O Brasil vive um paradoxo preocupante: enquanto boa parte da América Latina começa a se libertar do ciclo de fracassos da esquerda socialista e progressista, o governo Lula, versão três, aprofunda aqui o mesmo receituário estatizante, ideológico e leniente com o crime que já deu errado em todos os lugares onde foi testado. As evidências não são opinativas, são empíricas: pesquisas de opinião, indicadores educacionais internacionais e dados sobre ensino técnico expõem, em números frios, a falência de um projeto que está quebrando o país e sacrificando sua população presente e futura.
Na Argentina, o peronismo, símbolo maior do populismo estatista, foi derrotado por Javier Milei em 2023, e as eleições de 2025 consolidaram essa ruptura ao ampliar a base liberal no Congresso. Milei se elegeu prometendo redução drástica do Estado, combate à casta política e alinhamento claro com valores de mercado e liberdade, tudo aquilo que a esquerda demoniza. No Equador, Daniel Noboa, de perfil conservador e pró-mercado, foi reeleito em 2025, afastando o país do correísmo de esquerda e reforçando uma agenda de segurança e crescimento econômico. Na Bolívia, Rodrigo Paz assumiu a presidência em novembro de 2025, encerrando quase vinte anos de hegemonia do Movimento ao Socialismo (MAS), em resposta à combinação tóxica de economia travada, corrupção e radicalização ideológica.
O Peru seguiu caminho semelhante ao eleger José Jerí, de centro-direita, depois da crise que derrubou Dina Boluarte, enquanto o Chile escolheu José Antonio Kast, do Partido Republicano, para governar a partir de 2026, num claro repúdio ao experimentalismo da nova esquerda chilena que tentou reescrever a Constituição em chave revolucionária. El Salvador, por sua vez, transformou Nayib Bukele em símbolo regional ao mostrar que é possível enfrentar o crime organizado com mão firme, prisões em massa de gangues e rejeição aberta ao discurso vitimista que protege o bandido e despreza a vítima. O Paraguai, governado por Santiago Peña, mantém uma orientação clara de centro-direita, pró-mercado e de responsabilidade fiscal, consolidando um ambiente mais previsível para negócios e investimentos, em contraste com a instabilidade promovida por governos estatizantes na região.
A mensagem que emana desse conjunto de países é cristalina: o eleitor latino-americano se cansou de inflação alta, violência, corrupção sistêmica e degradação institucional e está disposto a apostar em projetos liberais e conservadores que defendem menos Estado, mais responsabilidade individual, respeito à propriedade privada, combate frontal ao crime e preservação da família. A esquerda, que durante anos vendeu o mito de que era a única alternativa possível, está sendo confrontada empiricamente pelos resultados que entregou ou deixou de entregar. O laboratório de experiências socialistas e bolivarianas produziu pobreza, insegurança e crises de legitimidade, abrindo espaço para que liberais e conservadores, com todas as suas imperfeições, se apresentem como opção de reconstrução institucional e moral.
Enquanto isso, o Brasil insiste em remar contra a maré. Lula reabilita velhas fórmulas da esquerda radical: aproximação diplomática com regimes autoritários como Rússia, China, Irã e Cuba, retórica antiocidental, expansão descontrolada do gasto público, reaparelhamento de estatais e tolerância ideológica com pautas de desencarceramento e flexibilização penal. Em vez de acompanhar seus vizinhos no esforço de reconstrução liberal-conservadora, o país se entrincheira num projeto de poder que produz atraso econômico, insegurança, dependência estatal e corrosão moral.
As pesquisas mais recentes mostram que a população já percebe, com clareza, a falência do arranjo lulista em garantir o mínimo civilizatório: segurança e saúde. De acordo com o Paraná Pesquisas, 44,3% dos brasileiros afirmam que a segurança pública piorou durante o governo Lula, contra apenas 20% que enxergam melhora e 32,4% que veem tudo igual. Em outro levantamento, de outubro de 2025, esse percentual de percepção de piora chega a 45,8%, com somente 17,2% apontando melhora – um padrão consolidado, não um acidente estatístico. Em termos simples, quase metade do país associa o atual governo a mais medo, mais crime e mais desordem.
A mesma pesquisa nacional que mapeia os maiores problemas do Brasil aponta que a segurança pública é hoje a principal preocupação para 22,2% dos entrevistados, seguida de perto pela saúde, com 20,1%. Em terceiro lugar vêm a inflação e o preço dos produtos, com 15,9%, e, logo depois, a educação pública, apontada por 13,8%. Trata-se de um diagnóstico devastador: o cidadão enxerga, ao mesmo tempo, um Estado incapaz de protegê-lo do criminoso, de cuidar minimamente de sua saúde, de preservar o poder de compra do seu salário e de oferecer educação decente aos seus filhos. No campo da saúde, o quadro não difere: 33,8% avaliam que a situação piorou sob Lula, 34,4% dizem que permanece igual e apenas 28,6% percebem melhora, o que, traduzido, significa estagnação em um sistema já crônico de filas, falta de médicos, leitos e exames.
Os números desmontam a narrativa da esquerda de que o problema é comunicação ou de fake news: o que está em jogo é a experiência concreta da população com o crime, com o hospital sucateado, com o posto de saúde sem remédio, com a família refém da violência e da precariedade. O discurso progressista sobre humanização do sistema penal, saidinhas, audiências de custódia, encarceramento em massa e relativização da responsabilidade individual do criminoso soa como escárnio para quem enterra parentes assassinados ou vive trancado em casa.
No plano econômico, a combinação de expansão de gastos, pressão por aumento de impostos e uso político das estatais repete, em câmera lenta, o roteiro que já conhecemos dos governos petistas anteriores. Em vez de enxugar a máquina, cortar privilégios, enfrentar corporações e simplificar o sistema tributário, Lula opta por empurrar a conta para o contribuinte, por meio de reonerações em cascata, recriação de tributos, aumento disfarçado de tarifas e expansão da dívida pública. A percepção popular acompanha: inflação e preços representam hoje um dos três maiores problemas do país, com 15,9% das menções, porque a população sente na pele, no supermercado e no botijão de gás, o custo de sustentar um Estado agigantado e ineficiente.
As estatais, que em momentos de gestão mais liberal voltaram a apresentar lucros robustos, valor de mercado crescente e dividendos importantes para a União, voltam a ser tratadas como instrumentos de projeto partidário, cabide de emprego e ferramenta ideológica. Isso significa perda de eficiência operacional, decisões de investimento politizadas, ingerência em preços e contratos e, na prática, destruição de valor que será reposta pelo contribuinte sob forma de mais impostos, tarifas maiores ou aumento da dívida. A esquerda gosta de falar em patrimônio do povo, mas administra esse patrimônio como se fosse uma extensão do partido – e quem paga a conta real é justamente o povo que não tem como se proteger da corrosão inflacionária, da estagnação da renda e da fuga de investimentos produtivos.
É na educação, porém, que o fracasso estrutural da hegemonia esquerdista se revela com maior crueldade. O Pisa 2022 expõe, em escala internacional, a mediocridade em que o Brasil foi condenado a viver. No ranking de 81 países, o Brasil ficou em 64º lugar em matemática, 53º em leitura e 61º em ciências, sempre abaixo da média da OCDE e atrás de vários vizinhos latino-americanos como Chile, Uruguai, México e Costa Rica. As notas brasileiras permanecem estagnadas desde 2009, com flutuações pequenas e, em sua maioria, não significativas, como reconhece o próprio relatório.
Os detalhes são ainda mais chocantes. Em matemática, 73% dos estudantes brasileiros não atingiram sequer o nível 2: patamar mínimo que a OCDE considera necessário para que um jovem possa exercer plenamente sua cidadania; entre os países-membros da OCDE, o percentual nessa faixa é de 31%. Apenas 1% dos estudantes brasileiros atingiu alto desempenho (nível 5 ou superior) em matemática. Em leitura, 50% dos jovens brasileiros ficaram abaixo do nível mínimo, contra 26% na OCDE, e só 2% alcançaram alto desempenho, frente a 7% nos países desenvolvidos. Em ciências, o quadro se repete: cerca de metade dos alunos está abaixo do nível básico, enquanto a OCDE mantém percentuais bem menores nessa faixa, o que significa que o Brasil forma gerações com compreensão científica apenas rudimentar.
A retórica oficial tenta relativizar o desastre dizendo que “o desempenho se manteve estável”, como se permanecer na rabeira fosse motivo de comemoração. A verdade é brutal: estabilidade em patamar baixo significa condenar gerações inteiras ao analfabetismo funcional, a empregos de baixa qualificação e a uma cidadania tutelada, dependente do Estado, sem ferramentas cognitivas para competir no mundo real. Em vez de alfabetização plena na idade certa, foco em matemática e ciências, meritocracia docente e gestão por resultados, o que se vê é um sistema escolar transformado em laboratório de engenharia social, militância identitária e disputa de narrativa.
Se o Pisa revela o desastre na base, o ensino técnico escancara a recusa do modelo petista em formar a força de trabalho que poderia tirar o Brasil da armadilha do subdesenvolvimento. Apenas cerca de 11% dos estudantes brasileiros entre 15 e 24 anos cursam ensino técnico profissionalizante, algo como um em cada dez jovens. Nos países da OCDE, a proporção varia de 35% dos alunos de 15 a 19 anos a até 65% entre 20 e 24 anos; em muitas economias desenvolvidas, a via técnico-profissional é, de fato, o caminho majoritário, não uma exceção marginal.
Em 2019, a participação do ensino técnico entre jovens brasileiros era de apenas 9%, enquanto a média da OCDE chegava a 38%; mesmo com leve melhora, continuamos dramaticamente atrás. Um estudo da indústria aponta que só 9% dos formandos do ensino médio no Brasil saem com formação profissional, contra média de 38% na OCDE, sendo que países como Áustria, Suíça e Reino Unido superam 60%. O recado desses números é inequívoco: enquanto o mundo civilizado utiliza o ensino técnico como motor de produtividade, competitividade e empregabilidade, o Brasil sob hegemonia esquerdista despreza essa rota, preferindo empurrar jovens para cursos superiores de baixa qualidade, que não formam para o trabalho, mas servem para inflar estatísticas e manter uma clientela politicamente cativa.
Não é exagero dizer que, nesse modelo, a educação não é vista como meio de emancipação individual, mas como instrumento de dominação política. Quanto menos o jovem souber matemática, ciências, tecnologia e ofícios qualificados, mais dependerá de programas assistenciais, mais vulnerável será a slogans fáceis, mais facilmente aceitará a tutela do Estado e a liderança iluminada do partido. É o oposto exato do ideal conservador de educação: formar cidadãos livres, competentes, responsáveis, capazes de prosperar pelo próprio esforço e de não depender do favor do governante de plantão.
Quando se juntam todos esses vetores – insegurança crescente, sistema de saúde estagnado, inflação e custo de vida sufocando famílias, estatais sendo destruídas na prática e escola capturada pela ideologia –, o quadro é claro: a esquerda está quebrando o Brasil por dentro. Quebra a segurança ao relativizar o crime; quebra a saúde ao manter um SUS de fachada; quebra a economia ao punir quem produz e premiar quem parasita; quebra a educação ao trocar conhecimento por doutrinação e técnica por ativismo. Não se trata de um conjunto de erros isolados, mas de um projeto coerente de poder, que usa o Estado como máquina de controle social e reprodução partidária.
As próximas gestões, se quiserem realmente reconstruir o país, herdarão um terreno devastado: contas públicas pressionadas, estatais fragilizadas, instituições desacreditadas, juventude mal formada, população amedrontada e descrente. A tarefa será titânica: reverter a leniência com o crime, desmontar o aparelhamento ideológico da educação, devolver racionalidade à política econômica, libertar as estatais da tutela partidária, reduzir o peso do Estado sobre quem trabalha e recuperar a centralidade da família, da responsabilidade individual e da liberdade como valores fundantes.
O alento é que o fracasso dos regimes de esquerda na região, do kirchnerismo argentino ao MAS boliviano, abriu uma janela histórica. Os eleitores não são mais reféns da narrativa de que o socialismo “humanizado” é a única alternativa possível; os números, das urnas às avaliações internacionais, mostram que há apetite por outro projeto: liberal nos princípios econômicos, conservador nos valores, firme na defesa da lei e da ordem e radicalmente comprometido com a liberdade. Cabe a quem se opõe ao atual regime transformar essa indignação em agenda concreta de reconstrução nacional.
Referências:
BRASIL. Ministério da Educação. Divulgados resultados do Brasil no Pisa 2022. Brasília, 4 dez. 2023. Disponível em:https://www.gov.br/mec/pt br/assuntos/noticias/2023/dezembro/divulgados-os-resultados-do-pisa-2022.
EXAME. Pisa 2022: Brasil fica entre os 20 piores países em matemática e ciências. São Paulo, 4 dez. 2023. Disponível em: https://exame.com/brasil/pisa-2022-brasil-fica-entre-os-20-piores-paises-em-matematica-e-ciencias-veja-detalhes/.
JEDUCA. Confira os principais destaques do desempenho do Brasil no Pisa 2022. 4 dez. 2023. Disponível em: https://jeduca.org.br/noticia/confira-os-principais-destaques-do-desempenho-do-brasil-no-pisa-2022.
BRASIL61. Um a cada dez jovens cursa ensino técnico no Brasil. 20 set. 2023. Disponível em: https://brasil61.com/n/um-a-cada-dez-jovens-cursa-ensino-tecnico-numero-abaixo-da-media-dos-paises-da-ocde-pind234240.
OBSERVATÓRIO GOIÁS. Apenas 11% dos estudantes brasileiros cursam ensino técnico. 2023. Disponível em: https://oportunidades.go.gov.br/observatorio/apenas-11-dos-estudantes-brasileiros-cursam-ensino-tecnico/2023/09/.
PORTAL DA INDÚSTRIA. No Brasil, só 9% dos formandos do ensino médio recebem formação profissional. 31 dez. 2024. Disponível em: https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/educacao/no-brasil-so-9-dos-formandos-do-ensino-medio-recebem-formacao-profissional/.
CNN BRASIL. Paraná Pesquisas: para 44,3%, segurança pública piorou com Lula no governo. 30 jan. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/parana-pesquisas-para-443-seguranca-publica-piorou-com-lula-no-governo/.
PODER360. Paraná Pesquisas: 45,8% dizem que segurança pública piorou sob Lula. 27 out. 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-pesquisas/parana-pesquisas-458-dizem-que-seguranca-publica-piorou-sob-lula/.
CNN BRASIL. Paraná Pesquisas: segurança e saúde são maiores problemas do Brasil. 1 fev. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/parana-pesquisas-seguranca-e-saude-sao-maiores-problemas-do-brasil/.
PODER360. Segurança e saúde são os maiores problemas dos brasileiros, diz pesquisa. 31 jan. 2026. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-pesquisas/seguranca-e-saude-sao-os-maiores-problemas-dos-brasileiros-diz-pesquisa/.
VEJA. Segurança e saúde lideram entre as insatisfações dos brasileiros, diz pesquisa. 1 fev. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/seguranca-e-saude-lideram-entre-as-insatisfacoes-dos-brasileiros-diz-pesquisa/.
EXAME. Eleições de 2025 tiveram avanço da direita na América do Sul. 29 dez. 2025. Disponível em: https://exame.com/mundo/eleicoes-de-2025-tiveram-avanco-da-direita-na-america-do-sul/.
GAZETA DO POVO. Como fica divisão política da América Latina após eleição no Chile. 14 dez. 2025. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/como-fica-divisao-politica-america-latina-apos-vitoria-da-direita-no-chile





