Carlos Henrique Araújo, mestre em sociologia e curador da Academia da Direita.
A educação brasileira chegou a um ponto em que já não se pode falar em crise, mas, sim, em colapso persistente: um retumbante e vergonhoso fracasso. Investem-se percentuais expressivos do PIB em educação, próximos ou até superiores aos de muitos países ricos, mas o resultado é um ensino entre os piores do mundo em leitura, matemática e ciências. Não é falta de dinheiro, é abundância de irresponsabilidade, burocracia, modas pedagógicas, ideologia, corrupção e incompetência. A escola brasileira, em vez de elevar o padrão intelectual e moral das novas gerações, tornou-se, em ampla medida, uma máquina de produção de ignorância autoconfiante, censura, ressentimento social e dependência do Estado.
Os resultados de avaliações internacionais expõem esse desastre. Por exemplo, no PISA o Brasil, infelizmente, encontra-se estacionado, há décadas, nas últimas posições, com a maioria esmagadora dos jovens incapaz de interpretar textos simples com segurança, resolver problemas matemáticos básicos ou compreender noções elementares de ciências.
A elite política de esquerda e seus seguidores repetem ad nauseam slogans sobre educação transformadora, inclusiva, humanista, mas o que se vê, na prática, é um sistema que transforma crianças curiosas em adolescentes desinteressados, intelectualmente frágeis e facilmente manipuláveis; verdadeiros analfabetos funcionais em muitos planos da realidade.
O país desperdiça talentos, inteligências e, ao mesmo tempo, alimenta uma casta de burocratas, especialistas e militantes que vivem da miséria intelectual que eles mesmos produzem.
Por trás dos números, há também uma degradação cultural e moral que a esquerda insiste em normatizar. A disciplina foi substituída pela permissividade; o respeito ao professor, por um igualitarismo vulgar que coloca discente e docente no mesmo patamar; a autoridade legítima, pela tirania da opinião desinformada. O resultado é um ambiente escolar em que o professor, muitas vezes, é refém de alunos, famílias omissas e gestões covardes. O patriotismo é ridicularizado, a moral cristã é caricaturada, a família é tratada como obstáculo e não como aliada, enquanto agendas identitárias, relativismo moral e panfletagem política ocupam tempo e espaço que deveriam ser dedicados ao ensino sólido de conteúdos.
O núcleo dessa distorção está na formação dos professores. Faculdades de pedagogia e licenciaturas foram capturadas por um dogmatismo esquerdista que idolatra Paulo Freire, relativiza qualquer padrão objetivo de excelência, transforma sala de aula em laboratório ideológico e em palanque. A preocupação central deixou de ser como ensinar bem para se tornar como conscientizar politicamente. Métodos eficazes de alfabetização, como abordagens fônicas baseadas em evidências empíricas, são desprezados em nome de pedagogias de moda; o estudo rigoroso de gramática, lógica, matemática, ciências e alta cultura cede lugar a atividades vazias, trabalhos sem conteúdo e debates pseudo-políticos. Uma geração de professores mal preparados alimenta outra ainda pior, aprofundando a espiral de mediocridade.
Soma-se a isso que o Estado brasileiro montou um aparato de controle centralizado que asfixia qualquer tentativa de inovação séria. O Ministério da Educação age como um comissariado ideológico, produzindo diretrizes abstratas, documentos prolixos e currículos carregados de competências vagas, mas esvaziados de conteúdos objetivos. A BNCC é o símbolo maior desse modelo: uma carta de intenções politizadas, mais preocupada em impor uma visão de mundo do que em garantir que um aluno de 15 anos saiba escrever, argumentar, ler um clássico, outra língua, resolver equações ou entender o básico das ciências. Estados e municípios são transformados em executores dóceis; a autonomia federativa é ignorada; o professor é reduzido a aplicador de guias abstratos e burocráticos.
O ensino médio é o retrato acabado dessa miséria intelectual. Enciclopédico, superficial, descolado da vida real, com um número absurdo de disciplinas e uma obsessão doentia com o tal do Enem; reduz-se a três anos de adestramento para um exame nacional. O que não cai na prova é relegado ao esquecimento; o que exige esforço e profundidade é trocado por resumos, apostilas e slogans. Forma-se um adolescente que opina sobre tudo sem saber o básico sobre quase nada. Não há espaço real para formação técnica séria, nem para abordagens diferenciadas; a escola se torna um grande cursinho fraco, ao mesmo tempo em que empurra milhões para cursos superiores de baixa empregabilidade, principalmente em humanidades, setor convertido em fábrica de militantes diplomados e desempregados.
No ensino superior, o cenário não é menos repugnante. Proliferam cursos de medicina e outras áreas da saúde sem controle de qualidade, formando profissionais que, muitas vezes, não dominam o essencial. A avaliação oficial (Enade) é prolixa, pouco transparente, facilmente manipulável, e não cria uma cultura de excelência acadêmica. Concursos para pós-graduação e docência são frequentemente viciados por compadrio, endogamia e alinhamento ideológico, não por mérito. Políticas de cotas amplas e mal desenhadas corroem o princípio da excelência sem atacar a raiz do problema, que é a péssima escola básica. A gratuidade irrestrita nas universidades públicas transfere recursos da sociedade inteira, inclusive dos mais pobres, para bancar a formação da elite, muitas vezes em cursos que pouco contribuem para o desenvolvimento do país.
Ao mesmo tempo, a escola brasileira negligencia a alta cultura e a formação física e estética. Música erudita, artes plásticas de excelência, literatura clássica, teatro de nível elevado, tudo isso é substituído por recortes fragmentados, cultura de massa e experiências superficiais. O esporte é tratado de maneira improvisada, sem um projeto consistente de base e alto rendimento integrado à vida escolar. A tecnologia, quando aparece, é mal utilizada: celulares e computadores entram como distração ou fetiche modernizador, não como ferramentas bem integradas a um currículo e à prática escolar.
Lamentavelmente, temos um sistema que não ensina, não forma, não eleva. Ele fragiliza o intelecto, dissolve valores, hostiliza a família, despreza a tradição, destrói o mérito e pavimenta o caminho para uma sociedade cada vez mais dependente, ressentida e vulnerável a projetos autoritários e estatizantes. Seguir assim não é uma opção: é escolher, deliberadamente, o atraso permanente.
Mas o que fazer? Seguem algumas sugestões de estratégias necessárias para que o ensino brasileiro se recupere minimamente. Sejamos claros, não há reforma verdadeira possível sem enfrentamento do establishment pedagógico, universitário e burocrático que se alimenta do fracasso atual. Uma agenda conservadora, forte e assumidamente de direita, precisa ser clara em seus objetivos: repor a verdade, o mérito, a ordem e a liberdade de escolha no coração da educação brasileira.
O primeiro passo é colocar o básico no centro. Isso significa abandonar a ilusão de que a escola deve salvar o mundo por meio de discursos politizados enquanto mal ensina a ler e somar. Na educação infantil e nos anos iniciais, o foco deve ser a alfabetização sólida, com métodos fônicos baseados em evidências, desenvolvimento da linguagem oral, formação do hábito de leitura e domínio progressivo da matemática elementar. Concomitantemente, é preciso ensinar ciências com clareza, com experiências simples, linguagem acessível e rigor conceitual, e introduzir desde cedo o contato com boa literatura, o aprendizado de outras línguas, música de qualidade e artes visuais que elevem a sensibilidade intelectual, não que a embruteçam e vulgarizem.
Isso exige uma revisão profunda na formação de professores. As faculdades de pedagogia e licenciaturas precisam ser desmontadas em seu viés doutrinário-censurador e reconstruídas sobre três pilares: domínio de conteúdo, conhecimento de métodos eficazes de ensino e formação moral e cívica alinhada à tradição da família brasileira. A ideologia de esquerda, que transformou o professor em agente de transformação social a serviço de projetos coletivistas, precisa ser substituída pelo ideal do mestre que ama o saber, valoriza a verdade, respeita a família e busca a excelência de seus alunos. Uma “residência docente” rigorosa, inspirada na residência médica, deve ser implementada: ninguém deveria assumir turmas de forma permanente sem passar por estágios longos, acompanhados, avaliados e, se necessário, reprovados.
A escola precisa recuperar autoridade, disciplina e hierarquia. Isso não é oposto à liberdade; é condição para o seu exercício responsável. O professor deve ter respaldo legal e institucional para impor regras claras de comportamento, aplicar sanções proporcionais e ser protegido contra agressões físicas ou morais de alunos e famílias. O ambiente escolar deve valorizar o trabalho duro, a pontualidade, o respeito ao mais velho, a reverência pelo conhecimento e o amor à pátria. O currículo deve contemplar, de modo franco, a herança cristã na formação da civilização ocidental e brasileira, sem censurar quem pensa diferente, mas também sem se dobrar a tentativas de apagar ou ridicularizar essa tradição.
No plano institucional, é urgente descentralizar e desideologizar o comando da educação. O MEC deve ser drasticamente reduzido, abandonando o papel de comando central e passando a ser um órgão enxuto, voltado a avaliações sérias, transparência de dados e apoio técnico. Estados e municípios precisam ter autonomia real para organizar seus sistemas, desde que respeitem um currículo mínimo nacional. Esse currículo deve ser curto, objetivo e técnico: conteúdos essenciais de língua portuguesa, matemática, ciências, ciências humanas, línguas estrangeiras e artes, por etapa, sem proselitismo político e sem jargão pedagógico oco. Tudo o que excede esse mínimo pertence à esfera da liberdade das redes, das escolas e das famílias.
Isso nos leva a uma peça central de uma agenda verdadeiramente conservadora: o reconhecimento e a proteção da educação em casa (homeschooling) como forma legítima e nobre de educar. A educação domiciliar não pode ser tratada como crime, nem como mero apêndice do sistema estatal. Famílias que desejam e têm condições de educar seus filhos em casa devem ter o direito de fazê-lo, com responsabilidade, liberdade e apoio, não sob suspeita e perseguição. Podem, também, contratar professores particulares para auxiliar na tarefa. Como já dito, é necessário estabelecer, em lei, um currículo mínimo essencial que assegure que a criança aprenda o fundamental de leitura, escrita, matemática, ciências, inglês, mas sem transformar o lar em mera reprodução do modelo escolar falido.
A educação em casa deve ser, justamente, uma oportunidade de superar o que a escola estatal não consegue oferecer: instrução personalizada, ritmo adequado a cada criança, formação moral coerente com a fé e os valores da família, contato intenso com livros de qualidade, com a realidade, com o trabalho e com a vida comunitária. Em vez de sufocar o homeschooling com burocracias, o Estado deve simplesmente garantir que o aluno seja periodicamente avaliado em exame externo objetivo, que verifique se atingiu o patamar mínimo de conhecimento exigido para cada faixa etária. Passado esse teste, o modo como ele chegou lá é assunto da família, não do governo. Pais não podem ser reduzidos a meros espectadores ou clientes da escola; são, em primeiro lugar, responsáveis pela educação dos filhos e têm o direito natural de escolher como irão exercê-la.
No ensino médio, é preciso romper com o modelo enciclopédico e com a pasteurização ocasionada pelo Enem. O exame nacional deve ser abolido, devolvendo às universidades e faculdades o direito e o dever de selecionar seus alunos mediante vestibulares alinhados às especificidades de cada instituição. Essa mudança abrirá espaço para que o ensino médio se diversifique: ofertas acadêmicas para quem quer seguir para a universidade, técnicas e profissionais robustas para quem quer ingressar rapidamente no mercado, itinerários formativos que valorizem ciência, tecnologia, engenharia, matemática, empreendedorismo, agricultura, indústria, tecnologia, artes de alto nível. O jovem precisa enxergar sentido prático no que estuda, sem abandonar a formação cultural e moral.
O financiamento da educação deve ser reorientado para premiar quem entrega resultados e não quem apenas matricula. Fundeb e demais mecanismos de repasse de recursos precisam ser vinculados, em parte significativa, à aprendizagem real, medida por avaliações externas sérias, por escola. É preciso acabar com a irresponsabilidade com os resultados. Ao mesmo tempo, a burocracia estatal precisa ser reduzida, cortando estruturas inúteis, consultorias ideológicas, projetos de fachada e cursos de formação continuada que não geram ganho concreto de aprendizado. O dinheiro economizado deve ir para a sala de aula, infraestrutura digna, materiais de qualidade e professores selecionados com rigor, acompanhados e recompensados pelo mérito.
No ensino superior, uma reforma profunda é inadiável. Universidades públicas devem cobrar mensalidades dos estudantes de maior renda, combinadas com sistemas de bolsas e crédito para os mais pobres, com critérios claros de mérito, acompanhamento e necessidade. Isso corrigirá o absurdo de um país pobre financiar, de graça, a formação de filhos da elite em cursos muitas vezes ideológicos e improdutivos. As políticas de cotas precisam ser revistas e limitadas com uma estratégia de transição que privilegie o fortalecimento da educação básica e a criação de ambiente de excelência para estudantes talentosos; sempre sem romper com o princípio de que vagas devem ser ocupadas por quem demonstrar melhor preparo. Os concursos de mestrado, doutorado e de professores devem ser os mais honestos possíveis e não mera reprodução de grupos de privilégios e vassalagem.
A governança das universidades deve ser retirada das mãos de sindicatos e grupos militantes. Reitores e dirigentes precisam ser escolhidos por mérito acadêmico e capacidade de gestão, mediante critérios objetivos, metas de desempenho e avaliações periódicas, não por eleições de caráter sindical. A avaliação dos cursos, por meio de um novo sistema em substituição ao Enade atual, deve ser técnica, transparente, com provas exigentes e comparáveis, permitindo que sociedade, famílias e mercado conheçam com clareza quais instituições e cursos entregam qualidade e quais apenas consomem recursos.
O setor privado deve ter sua importância reconhecida e ampliada. Escolas particulares precisam ter liberdade para adotar projetos pedagógicos próprios, confessionais ou não, clássicos ou inovadores, desde que cumpram um núcleo mínimo de conteúdos. Estados e municípios deveriam contratar vagas em escolas privadas de bom desempenho, por meio de bolsas vinculadas ao mérito e à renda, para alunos pobres, criando competição saudável, elevando o padrão geral e rompendo com o monopólio estatal de fato. Parcerias público-privadas não podem se limitar à construção de prédios; devem incluir gestão, professores, metas e responsabilização, aproveitando experiências bem-sucedidas como as do Sistema S, que, apesar de ajustes necessários, mostram que é possível fazer formação técnica séria no Brasil.
A tecnologia e a inteligência artificial devem ser incorporadas como aliadas, não como fetiche. Elas podem ampliar o alcance dos melhores professores, facilitar o acompanhamento individual de alunos, corrigir milhares de exercícios em pouco tempo, ajudar na identificação de lacunas de aprendizagem e fornecer diagnósticos finos para gestores. Mas nada disso substitui o professor competente, a aula bem dada e o estudo disciplinado. A prioridade continua sendo reconstruir o básico; tecnologia entra como multiplicador, não como substituto.
Ainda, é preciso recolocar a família e não o Estado no centro do projeto educacional. Uma nação que entrega seus filhos, inteiramente, a um sistema escolar dominado por ideólogos e burocratas hostis à sua própria cultura está assinando sua sentença de decadência. A estratégia é clara: devolver às famílias a liberdade de escolher (escola pública, privada, confessional, comunitária ou educação em casa), devolver aos professores o respeito e a autoridade, devolver à escola a missão de instruir e formar, devolver à universidade o compromisso com a verdade e a excelência, devolver à juventude o direito de aspirar a algo maior do que a mediocridade e o ressentimento.
Reconstruir a educação brasileira é uma tarefa geracional. Mas ela começa com uma decisão política e moral: romper com a cartilha da esquerda, abandonar a ilusão do Estado pedagogo e afirmar, sem medo, que só uma educação ancorada em verdade, mérito, família, fé, trabalho e liberdade será capaz de tirar o Brasil do atraso crônico.






