{"id":7508,"date":"2026-04-09T13:47:53","date_gmt":"2026-04-09T16:47:53","guid":{"rendered":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/?p=7508"},"modified":"2026-04-09T13:51:37","modified_gmt":"2026-04-09T16:51:37","slug":"brasil-o-pais-que-mais-mata-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/brasil-o-pais-que-mais-mata-no-mundo\/","title":{"rendered":"Brasil: o pa\u00eds que mais mata no mundo"},"content":{"rendered":"\n<p>Carlos Henrique Ara\u00fajo, mestre em sociologia e Curador da Academia da Direita.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Aprendemos com Theodore Dalrymple que \u201ca primeira requisi\u00e7\u00e3o para a vida civilizada \u00e9 que o homem esteja disposto a reprimir seus instintos e apetites mais ferozes. O fracasso no estabelecimento desse primeiro requisito tornar\u00e1 o homem, devido \u00e0 faculdade da raz\u00e3o, um ser muito pior que as feras da natureza.\u201d (DALRYMPLE, 2015, p. 196). A impunidade \u00e9 o motor do crime. \u00c9 fator preponderante na reincid\u00eancia e no volume de delitos cometidos. Se n\u00e3o houver puni\u00e7\u00e3o exemplar, rigorosa, r\u00e1pida e determinada, o resultado, por \u00f3bvio, ser\u00e1 sempre a profus\u00e3o de crimes e de criminosos.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Vejamos alguns dados gerados, em grande parte, pela at\u00e1vica e enraizada cultura nacional da impunidade, que solta as \u201cferas da natureza\u201d. Na Tabela 1, constatamos os n\u00fameros de mortes violentas intencionais (MVI) e as taxas de MVI por 100 mil habitantes, por regi\u00e3o e para o pa\u00eds. As taxas nos permitem comparar as unidades de an\u00e1lise proporcionalmente.<br>O MVI, ou seja, o n\u00famero de mortes violentas intencionais, \u00e9 formado pela soma das v\u00edtimas de homic\u00eddio doloso, incluindo feminic\u00eddio, latroc\u00ednio, les\u00e3o corporal seguida de morte e mortes decorrentes de interven\u00e7\u00f5es policiais. Representa o total de mortes violentas com intencionalidade definida em um territ\u00f3rio; aqui, as regi\u00f5es e o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><br>A taxa por 100 mil habitantes \u00e9 o n\u00famero de MVI dividido pela popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o e do Brasil, multiplicado por 100.000. Esse indicador permite comparar n\u00edveis de viol\u00eancia letal entre regi\u00f5es com popula\u00e7\u00f5es diferentes, como dito acima.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"735\" height=\"480\" src=\"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7511\" srcset=\"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image.png 735w, https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-300x196.png 300w\" sizes=\"(max-width: 735px) 100vw, 735px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><br>O n\u00famero absoluto \u00e9 escandaloso: 44.127 pessoas assassinadas em 2024. O Nordeste \u00e9 o epicentro da trag\u00e9dia: 19.326 mortos e taxa de 33,8 por 100 mil habitantes, muito acima da m\u00e9dia nacional de 20,8. \u00c9 uma regi\u00e3o inteira vivendo com \u00edndices de letalidade que merecem o desencadeamento de a\u00e7\u00f5es estaduais e federal de emerg\u00eancia. Com a falta de efici\u00eancia na seguran\u00e7a p\u00fablica da regi\u00e3o e a impunidade que grassa no sistema judici\u00e1rio, a viol\u00eancia atinge o topo, pois o crime organizado, hoje, trava disputas por territ\u00f3rios em todo o Nordeste.<\/p>\n\n\n\n<p><br>O Norte, com 27,7 por 100 mil, tamb\u00e9m se destaca negativamente. A expans\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es, do garimpo ilegal, do tr\u00e1fico em rotas amaz\u00f4nicas e a aus\u00eancia do Estado explicam por que a regi\u00e3o se tornou corredor de viol\u00eancia e n\u00e3o de desenvolvimento, al\u00e9m de estar se consolidando como uma grande rota do tr\u00e1fico. Devemos lembrar que o Norte faz fronteira com Col\u00f4mbia, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Peru e Bol\u00edvia. Algumas dessas na\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito ativas na produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de drogas; deveria ser uma regi\u00e3o de prioridade para a\u00e7\u00f5es de combate ao narcotr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Sudeste e Sul apresentam taxas menores (13,3 e 14,6), o que n\u00e3o significa um para\u00edso de paz, mas indica que a pol\u00edcia \u00e9 menos demonizada e o crime n\u00e3o \u00e9 abertamente romantizado. Nessa regi\u00e3o a letalidade \u00e9 menor. A exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o Rio de Janeiro, mergulhado em lutas do CV e das mil\u00edcias para o controle de territ\u00f3rios. S\u00e3o Paulo \u00e9 o estado com a menor taxa de MVI por 100 mil habitantes do pa\u00eds. A a\u00e7\u00e3o policial paulista \u00e9 reconhecida como eficiente, apesar de o estado padecer com as mesmas leis frouxas e executadas com muitas falhas graves.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Em 2024, foram assassinadas 44.127 pessoas; a imensa maioria de homens jovens vitimados por outros homens jovens. As v\u00edtimas e seus algozes t\u00eam o mesmo perfil. Grande parte mata e morre por quest\u00f5es ligadas ao narcoterror, ao dom\u00ednio territorial e \u00e0 tomada violenta de mercados il\u00edcitos.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Dados de Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates indicam um \u00edndice aterrador de 26% da popula\u00e7\u00e3o brasileira vivendo sob regras impostas por grupos criminosos (URIBE et al., 2025). Grosso modo, esse percentual significa que 55,5 milh\u00f5es de habitantes est\u00e3o sendo submetidos diariamente a marginais que controlam territ\u00f3rios e exploram servi\u00e7os junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 crime eventual; \u00e9 um sistema paralelo de poder, com leis pr\u00f3prias, tribunais do crime, cobran\u00e7a de taxas e monop\u00f3lio da viol\u00eancia em \u00e1reas inteiras, extensas e populosas.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Em suma, em 2024, no Nordeste, foram assassinadas 19.326 pessoas; a taxa \u00e9 alarmante: 33,8 mortos por 100 mil habitantes, bem acima da taxa nacional, de 20,8. No Sudeste, a taxa ficou em 13,3 e, no Sul, em 14,6. A segunda regi\u00e3o nacional onde mais se mata \u00e9 o Norte: foram assassinadas 5.174 pessoas e a taxa por 100 mil habitantes foi de 27,7, portanto maior que a taxa nacional. No Centro-Oeste, a taxa foi calculada em 19,5, ficando abaixo da taxa do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><br>O n\u00famero nacional chama a aten\u00e7\u00e3o. Por diversas fontes de dados, verifica-se que, no Brasil, se mata muito, em qualquer compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses. Esse \u00e9 o retrato atual, tomado a partir da \u00faltima pesquisa divulgada. Podemos agora apreciar a evolu\u00e7\u00e3o desses n\u00fameros ao longo da s\u00e9rie hist\u00f3rica publicada. Abaixo, um resumo em dados da movimenta\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios no tempo.<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"757\" height=\"591\" src=\"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7513\" srcset=\"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-1.png 757w, https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-1-300x234.png 300w\" sizes=\"(max-width: 757px) 100vw, 757px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><br>Sobre os dados acima relacionados, \u00e9 poss\u00edvel dizer que o \u00e1pice da viol\u00eancia assassina ocorreu em 2017, com taxa nacional de 31,2 MVI por 100 mil habitantes. Norte (44,7) e Nordeste (49,0) atingem n\u00edveis que, em qualquer relat\u00f3rio internacional s\u00e9rio, seriam classificados como cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria. A partir de 2018, h\u00e1 uma queda consistente: podemos considerar que descemos de um cen\u00e1rio de barb\u00e1rie para um patamar ainda de extrema viol\u00eancia. Sair de 31,2 para 20,8 n\u00e3o transforma o Brasil em pa\u00eds civilizado; mas diminui o volume di\u00e1rio da carnificina.<\/p>\n\n\n\n<p><br>O Nordeste permanece sistematicamente acima da m\u00e9dia nacional em todos os anos, o que mostra que n\u00e3o se trata de fase ou de uma situa\u00e7\u00e3o eventual, passageira, mas de fracasso profundo, alimentado por governos que preferem discursos ideol\u00f3gicos e justificadores a pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es implac\u00e1veis contra o crime.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Sudeste e Sul consolidam-se como regi\u00f5es menos letais, com taxas bem abaixo da m\u00e9dia nacional em todo o per\u00edodo analisado, evidenciando que, onde h\u00e1 algum grau de ordem institucional, o crime pode recuar.<\/p>\n\n\n\n<p><br>O n\u00famero absoluto nos d\u00e1 a dimens\u00e3o da grande trag\u00e9dia nacional. Em 2024, foram quase 45 mil homic\u00eddios. Em 2021, o Brasil j\u00e1 figurava como o pa\u00eds que mais mata no mundo em n\u00fameros absolutos. Observemos a tabela abaixo e atestemos o fundo do po\u00e7o em que a na\u00e7\u00e3o est\u00e1 metida. N\u00e3o se pode deixar de afirmar que esses n\u00fameros alarmantes est\u00e3o diretamente relacionados ao avan\u00e7o do narcoterrorismo no Brasil.<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"732\" height=\"504\" src=\"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7514\" srcset=\"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-2.png 732w, https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-2-300x207.png 300w\" sizes=\"(max-width: 732px) 100vw, 732px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><br>O Brasil lidera o ranking mundial em n\u00famero absoluto de homic\u00eddios. Supera \u00cdndia e Estados Unidos, que t\u00eam popula\u00e7\u00f5es muito maiores. Isso mostra que n\u00e3o \u00e9 um problema de tamanho, mas de absoluta permissividade com o crime. M\u00e9xico, Col\u00f4mbia e \u00c1frica do Sul dividem conosco o palco da barb\u00e1rie. S\u00e3o pa\u00edses em que crime organizado, narcoterror e garantismo penal formam uma alian\u00e7a est\u00e1vel contra o cidad\u00e3o comum.<\/p>\n\n\n\n<p><br>A presen\u00e7a de Myanmar, R\u00fassia e Paquist\u00e3o revela que o grupo \u00e9 composto por pa\u00edses com graves problemas de governan\u00e7a, conflitos internos, totalitarismo e corrup\u00e7\u00e3o institucional. O Brasil est\u00e1 confortavelmente sentado a essa mesa.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Quando um pa\u00eds se mant\u00e9m no topo dessa lista, ano ap\u00f3s ano, deixa de ser uma conting\u00eancia e passa a ser escolha pol\u00edtica: leis frouxas, tribunais lenientes, ditos especialistas justificando o injustific\u00e1vel e uma cultura que transforma bandido em v\u00edtima e condena a v\u00edtima ao limbo e ao esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Em termos de taxa por 100 mil habitantes, o Brasil fica em segundo lugar entre os pa\u00edses mais populosos, perdendo apenas para o M\u00e9xico, e \u00e0 frente de pa\u00edses como Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, Eti\u00f3pia, Bangladesh e \u00cdndia.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Desta forma, no ranking de letalidade dentro do grupo de pa\u00edses com mais de 100 milh\u00f5es de habitantes, s\u00f3 somos superados por uma na\u00e7\u00e3o completamente dominada pelo crime organizado e pelo narcoterror.<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"804\" height=\"714\" src=\"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7515\" srcset=\"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-3.png 804w, https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-3-300x266.png 300w, https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-3-768x682.png 768w\" sizes=\"(max-width: 804px) 100vw, 804px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><br>\u00cdndia, Bangladesh e China, com popula\u00e7\u00f5es gigantescas, t\u00eam taxas muito inferiores. Isso destr\u00f3i, de uma vez, a ladainha de que muita popula\u00e7\u00e3o pobre gera muita morte; o que gera homic\u00eddios \u00e9 impunidade, leni\u00eancia penal e covardia pol\u00edtica para reformar profundamente o C\u00f3digo Penal e o de Execu\u00e7\u00e3o Penal.<\/p>\n\n\n\n<p><br>O contraste entre Jap\u00e3o (0,3) e Brasil (21) \u00e9 um soco na cara da complac\u00eancia. Um pa\u00eds, com cultura disciplinada e puni\u00e7\u00e3o eficaz, convive com \u00edndices de homic\u00eddio quase simb\u00f3licos, enquanto o Brasil, com desarmamento civil e garantismo exacerbado, coleciona cad\u00e1veres.<br>A combina\u00e7\u00e3o de alt\u00edssima taxa e alt\u00edssimo n\u00famero absoluto faz do Brasil uma anomalia tr\u00e1gica: um pa\u00eds que protege o criminoso, abandona a v\u00edtima e chama isso de pol\u00edtica de direitos humanos. Ainda por cima, temos a sociologia que protege bandidos. Os que justificam marginais em fun\u00e7\u00e3o de suas condi\u00e7\u00f5es sociais, financeiras e familiares obviamente n\u00e3o levam em conta a simples realidade de que a maioria esmagadora dos pobres n\u00e3o \u00e9 composta por marginais; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma maioria de pessoas honestas e cumpridoras das leis. Tampouco consideram o fato de haver ricos, membros de fam\u00edlias estruturadas, com alta escolaridade, que optam pelo crime.<\/p>\n\n\n\n<p><br>S\u00e3o fatos incontorn\u00e1veis que refutam a p\u00e9ssima sociologia marxista sobre o crime. Exatamente essa foi a teoria espalhada, aos moldes gramscianos, nas escolas, universidades, na grande imprensa, em filmes e, mais grave ainda, est\u00e1 presente de forma hegem\u00f4nica nos poderes da Rep\u00fablica. E n\u00e3o s\u00f3 no Brasil; trata-se de uma sociologia que se espalhou como praga. Em particular, essa eros\u00e3o da Ci\u00eancia do Direito por meio do marxismo pariu gera\u00e7\u00f5es de operadores das leis que s\u00e3o revolucion\u00e1rios e profundamente ignorantes, militantes \u00fateis. \u201c\u00c9 na seara da justi\u00e7a criminal que a vertente ideol\u00f3gica marxista causa danos mais palp\u00e1veis, vis\u00edveis a olho nu, refletida na doutrina (ou melhor dizendo, ideologia) do garantismo penal, sistematizada com uma roupagem convenientemente juspositivista pelo jurista italiano Luigi Ferrajoli\u201d (PESSI; GIARDIN, 2023, p. 183).<\/p>\n\n\n\n<p><br>Dalrymple \u00e9 incisivo: \u201co objetivo final do furor desconstrucionista, que varreu a academia como uma epidemia, \u00e9 a pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o, enquanto os narc\u00edsicos dentro da academia tentam encontrar justificativas te\u00f3ricas para sua pr\u00f3pria revolta contra as restri\u00e7\u00f5es civilizacionais. Assim sendo, chegamos \u00e0 verdade \u00f3bvia, de que \u00e9 necess\u00e1rio conter, seja pela lei ou pelos costumes, a possibilidade permanente de brutalidade ou de barbarismo na natureza humana. Mas essa verdade nunca encontra espa\u00e7o na imprensa ou na m\u00eddia de comunica\u00e7\u00e3o de massa\u201d (DALRYMPLE, 2015, p. 202).<\/p>\n\n\n\n<p><br>A cegueira intelectual de grande parte de nossas elites falantes leva ao afrouxamento penal e \u00e0 idolatria de marginais, consagrados em filmes, document\u00e1rios e outros meios, muitas vezes justificados e admirados. H\u00e1, em nosso pa\u00eds, uma cultura elitista acolhedora de marginais e bandidos de todos os calibres, do bandidinho que rouba celular ao poderoso bandid\u00e3o do sistema financeiro, por exemplo. \u201cComo era de se esperar, o avassalador apoio popular e o estrondoso sucesso no combate ao terrorismo e ao crime organizado encontravam resist\u00eancia justamente na vertente intelectual organicamente identificada com os planos da esquerda\u201d (PESSI; GIARDIN, 2023, p. 186).<\/p>\n\n\n\n<p><br>Toda essa geleia da sociologia marxista sobre criminalidade contribui diretamente para formar um ambiente de afago e de incentivos \u00e0 prosperidade da mentalidade marginal, principalmente entre os que est\u00e3o no topo da hierarquia social. Os de baixo detestam bandidos, pois s\u00e3o eles mesmos os seus ref\u00e9ns; sabem, no duro cotidiano, o que \u00e9 um ladr\u00e3o, um traficante ou um estuprador. O povo comemora, sempre em sil\u00eancio, quando alguns desses morrem ou s\u00e3o encarcerados. Sente al\u00edvio. Em outros termos, \u201ca semeadura \u00e9 livre, mas a colheita, obrigat\u00f3ria: a aplica\u00e7\u00e3o de teorias \u2018cr\u00edticas, garantistas e alternativas\u2019 em mat\u00e9ria penal vem rendendo ao Brasil os \u00fanicos frutos produzidos pela mentalidade revolucion\u00e1ria: terror, destrui\u00e7\u00e3o e morte\u201d (PESSI; GIARDIN, 2023, p. 55-56).<\/p>\n\n\n\n<p><br>Vale a pena citar mais uma mentira contada por nossa conhecida geleia de sociologia marxista: marginais assim o s\u00e3o porque est\u00e3o desempregados, desamparados no mercado de trabalho. S\u00e3o, mais uma vez, interpretados como coitadinhos. O racioc\u00ednio chega a ser c\u00f4mico: estariam desempregados e, por isso, roubam, matam e estupram. Ora, esse \u00e9 um pseudorracioc\u00ednio. \u00c9 c\u00ednico ou atrapalhado pela ignor\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Vale repetir o \u00f3bvio ululante: a maioria esmagadora dos desempregados n\u00e3o comete atos criminais, e bandido, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o quer trabalhar. Eis como especialistas s\u00e9rios tratam a quest\u00e3o: \u201c(\u2026) o desinteresse pelo trabalho constitui tra\u00e7o de personalidade do delinquente, raz\u00e3o pela qual a maior ou menor oferta de oportunidade de emprego lhe \u00e9 indiferente. A mentalidade criminosa tem outro tra\u00e7o caracter\u00edstico: o criminoso jamais considera suficiente o poder que possui. A excita\u00e7\u00e3o com o crime \u00e9 seu oxig\u00eanio. Afinal, o que leva um executivo com um bom emprego a desviar fundos corporativos? A resposta \u00e9 simples: sua mentalidade \u00e9 a mesma do ladr\u00e3o de bancos.\u201d (PESSI; GIARDIN, 2023, p. 23).<br>Precisamos ir um pouco mais fundo para estudar a cultura da impunidade. H\u00e1 duas vis\u00f5es realmente poderosas para debilitar a seguran\u00e7a p\u00fablica. S\u00e3o mitos e inverdades que contribuem de forma importante para solidificar ainda mais a impunidade e intimidar o trabalho policial.<\/p>\n\n\n\n<p><br>A primeira \u00e9 entender o encarceramento como n\u00e3o necess\u00e1rio e que a pris\u00e3o tem o dever maior de regenerar o bandido. N\u00e3o h\u00e1 e jamais haver\u00e1 seguran\u00e7a efetiva se n\u00e3o houver puni\u00e7\u00e3o por meio do encarceramento eficiente, ou seja, retirar o bandido de circula\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a evidente fun\u00e7\u00e3o n\u00famero um do encarceramento: parar as a\u00e7\u00f5es criminosas com a puni\u00e7\u00e3o da cadeia. Secundariamente, pode at\u00e9 recuperar marginais, claro, desde que esses queiram. Os tais cr\u00edticos do encarceramento chamam os pres\u00eddios de universidade do crime. Nada mais enganoso e falso: \u201c(\u2026) a ideia de que a pris\u00e3o \u00e9 uma \u2018escola do crime\u2019, que acaba por converter um inocente em delinquente \u00e9 errada. A contribui\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o para o fomento da criminalidade est\u00e1 na possibilidade de amplia\u00e7\u00e3o das associa\u00e7\u00f5es e do suporte fornecido aos padr\u00f5es antissociais do criminoso. Ele pode ter contato com novos planos criminosos na pris\u00e3o, mas a decis\u00e3o de continuar a delinquir, aceitando-os ou rejeitando-os, continua sendo dele.\u201d (PESSI; GIARDIN, 2023, p. 23-24).<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u00c9 preciso reafirmar que a certeza da puni\u00e7\u00e3o, ou seja, saber que a pena ser\u00e1 dura e cumprida com rigor, inibe o criminoso, e isto \u00e9 mais do que evidente. Medo de puni\u00e7\u00e3o funciona. \u00c9 precisamente isso que a cultura garantista tenta neutralizar. \u201cUm dado merece destaque: essa mudan\u00e7a de padr\u00e3o de comportamento \u00e9 obtida de forma espont\u00e2nea por alguns apenados, diante da simples e aterradora perspectiva de que um dia voltem a ser encarcerados.\u201d (PESSI; GIARDIN, 2023, p. 27).<\/p>\n\n\n\n<p><br>A segunda vis\u00e3o deturpada \u00e9 a que p\u00f5e o trabalho policial como o vil\u00e3o da hist\u00f3ria. Acusam policiais dos maiores absurdos, com difama\u00e7\u00e3o ad nauseam, usam o infame r\u00f3tulo de racista para todos os policiais; a maioria deles pardos, como s\u00e3o os brasileiros. S\u00e3o ataques que intimidam e dificultam o trabalho dos policiais repercutindo no aumento de crimes. S\u00e3o ataques que reverberam a cosmovis\u00e3o dos marginais. Acusa\u00e7\u00f5es absurdas e irreais aos policiais, sejam militares ou civis, s\u00e3o contribui\u00e7\u00e3o direta para a libertinagem dos bandidos.<\/p>\n\n\n\n<p><br>S\u00e3o essas ideologias, mitos e fal\u00e1cias que geraram a famigerada audi\u00eancia de cust\u00f3dia, que acabou virando um instrumento jur\u00eddico de humilha\u00e7\u00e3o de policiais. \u201cAnalisando a audi\u00eancia nos moldes descritos pelo CNJ, verifica-se a sua veia totalmente desequilibrada, contrariando o princ\u00edpio mais elementar da justi\u00e7a: a equidade. Policiais podem facilmente ser acusados de abuso de qualquer g\u00eanero, sem contradit\u00f3rio algum, fator que pode decidir em favor da liberdade do flagrado em crime, por exemplo. Ali\u00e1s, os policiais respons\u00e1veis pela pris\u00e3o nem sequer podem ingressar na sala de audi\u00eancia.\u201d (CARPES, 2021, p. 137).<\/p>\n\n\n\n<p><br>Ainda, podemos identificar de forma muito clara que a impunidade est\u00e1 na raiz do aumento e consolida\u00e7\u00e3o dos crimes e dos criminosos. Punimos mal, pouco e de forma exageradamente benevolente. \u201cConforme j\u00e1 salientei em diversos artigos publicados, o maior problema do sistema punitivo brasileiro \u00e9 o verdadeiro sistema de \u2018porta girat\u00f3ria\u2019 das pris\u00f5es. Nossos \u00edndices reais de reincid\u00eancia \u2013 que consideram tamb\u00e9m os crimes cometidos que n\u00e3o tiveram descoberta a autoria pela Pol\u00edcia \u2013 s\u00e3o alt\u00edssimos, sendo quase imposs\u00edvel que um detento n\u00e3o volte a delinquir.\u201d (CARPES, 2021, p. 106).<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u00c9 importante citar que h\u00e1 grupos sendo financiados para defender mitos, fal\u00e1cias e ideologias que favorecem os criminosos. Est\u00e3o acomodados, geralmente, em ONGs, imprensa, universidades e no pr\u00f3prio aparelho estatal. S\u00e3o os que acusam o Brasil de ter encarceramento em massa. Algo completamente mentiroso. \u201cO sistema prisional brasileiro h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas tem provocado in\u00fameros debates em fun\u00e7\u00e3o de sua insalubridade, pelo menos em grande parte dos seus estabelecimentos. Contudo, em vez de incitar o incremento de investimentos no sistema, bem como ensejar melhor gest\u00e3o, as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es carcer\u00e1rias t\u00eam servido de bode expiat\u00f3rio para uma bem articulada campanha de desencarceramento, turbinada por vultosos aportes financeiros especialmente oriundos de organiza\u00e7\u00f5es internacionais com interesses estranhos aos nacionais, que irrigam in\u00fameras organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais travestidas de movimentos da propalada \u2018sociedade civil organizada\u2019.\u201d (CARPES, 2021, p. 61).<\/p>\n\n\n\n<p><br>A s\u00edntese dessa cultura da impunidade \u00e9 bem descrita pelos autores consultados: \u201cA pol\u00edcia, como agente respons\u00e1vel pela defesa de um Estado ileg\u00edtimo, \u00e9 o maior inimigo, o advers\u00e1rio a ser odiado, batido e, se poss\u00edvel, eliminado. Floresce o \u00f3dio \u00e0 pol\u00edcia. Viceja a glamouriza\u00e7\u00e3o dos criminosos. Imp\u00f5e-se a cultura da bandidolatria.\u201d (PESSI; GIARDIN, 2023, p. 180). Dalrymple arremata: \u201cfrequentemente, \u00e9 muito mais f\u00e1cil provocar um desastre total do que uma modesta melhoria.\u201d (DALRYMPLE, 2015, p. 198).<\/p>\n\n\n\n<p><br>O m\u00e9dico brit\u00e2nico e ex\u00edmio escritor d\u00e1 o seu depoimento pessoal sobre a \u00edndole criminosa dos que escolheram o caminho da desobedi\u00eancia das leis. \u201cTendo conhecido muitos traficantes, duvido que essas pessoas vivam de forma respeit\u00e1vel caso o principal produto de seu neg\u00f3cio seja legalizado. Longe de mostrar um desejo de serem reincorporados ao mundo do trabalho regular, eles expressam um profundo desprezo por ele, e consideram aqueles que aceitam a barganha de um honesto dia de trabalho em troca de um pagamento honesto como covardes e est\u00fapidos.\u201d (DALRYMPLE, 2015, p. 271).<\/p>\n\n\n\n<p><br>Para encerrar, os dados oficiais revelam um Brasil em que se mata facilmente e em grandes quantidades. Paradoxalmente, parte significativa da elite intelectual, pol\u00edtica e midi\u00e1tica continua empenhada em proteger o criminoso, enfraquecer a pol\u00edcia e desacreditar a puni\u00e7\u00e3o. A maioria pobre, ref\u00e9m do crime, sabe muito bem quem s\u00e3o os seus algozes. E comemora, ainda que em sil\u00eancio, quando estes s\u00e3o presos ou mortos.<\/p>\n\n\n\n<p><br>A semeadura de teorias ditas cr\u00edticas, garantistas e alternativas produziu o que sempre produz: terror, destrui\u00e7\u00e3o e morte. N\u00e3o \u00e9 falta de diagn\u00f3stico; \u00e9 escolha. Enquanto n\u00e3o houver repress\u00e3o firme, puni\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e encarceramento efetivo dos criminosos contumazes, o Brasil seguir\u00e1 sendo o pa\u00eds que mais mata no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><br><strong>Refer\u00eancias<\/strong><br>CARPES, Jo\u00e3o Ricardo dos Santos. O mito do encarceramento em massa. Londrina, PR: EDA \u2013 Educa\u00e7\u00e3o, Direito e Alta Cultura, 2021.<br>DALRYMPLE, Theodore. Nossa cultura\u2026 ou o que restou dela. S\u00e3o Paulo: \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es, 2015.<br>F\u00d3RUM BRASILEIRO DE SEGURAN\u00c7A P\u00daBLICA. Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica 2025. S\u00e3o Paulo: FBSP, 2025.<br>PESSI, Diego; GIARDIN, Leonardo. Bandidolatria e democ\u00eddio: ensaios sobre garantismo penal e a criminalidade no Brasil. Campinas, SP: Vide Editorial, 2023.<br>UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME. Global Study on Homicide 2023. Vienna: UNODC, 2023.<br>URIBE, Andres; LESSING, Benjamin; SCHOUELA, Noah; STECHER, Elayne. Criminal governance in Latin America: prevalence and correlates. Perspectives on Politics, Cambridge University Press, v. 23, n. 3, p. 1-22, 2025.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"tmnf_excerpt meta_deko\"><p>Carlos Henrique Ara\u00fajo, mestre em sociologia e Curador da Academia da Direita. Aprendemos com Theodore Dalrymple que \u201ca primeira requisi\u00e7\u00e3o para a vida civilizada \u00e9 que o homem esteja disposto a reprimir seus instintos e apetites mais ferozes. O fracasso no estabelecimento desse primeiro requisito tornar\u00e1 o homem, devido \u00e0 faculdade da raz\u00e3o, um ser &hellip;<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":7509,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-7508","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil-conservador"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7508","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7508"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7508\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7516,"href":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7508\/revisions\/7516"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7509"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7508"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7508"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/academiadadireita.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7508"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}